Em meio à crise, mato-grossenses conseguem criar oportunidades


Economista explica que o perfil empreendedor do mato-grossense permite antecipar tendências e apostar em atividades econômicas com grande potencial de expansão.

Falar em oportunidades enquanto a maioria está lamentando a crise econômica que afeta o país é algo natural para o mato-grossense Greysemberg Lemes Abreu Garcia, de 36 anos. Para ele, é só uma questão de como encarar o momento e de conseguir enxergar um diferencial que possa se destacar no mercado. Proprietário de uma academia em Cuiabá, ele resolveu driblar o momento e também passou a oferecer treinos funcionais em condomínios fechados.

Atualmente, o educador físico e três auxiliares atendem três residenciais no Bairro Jardim Imperial e um grupo no Bairro Pedra 90, totalizando mais de 40 pessoas. “É uma praticidade para os moradores, que não precisam pegar trânsito para praticar exercícios e também pode ser uma opção para aquelas pessoas que não gostam de frequentar academia”, explica. Além disso, ele acompanha alguns dos 280 alunos em corridas de rua e maratonas. Este ano, por exemplo, foi para o Chile e São Paulo e ainda tem a Maratona do Rio de Janeiro, no dia 29 maio.

No caso do educador físico, que também possui pós-graduação em Fisiologia do Exercício e Preservação do Treinamento, a resposta para a crise foi buscar mais qualificação e ampliar o espaço da academia. A reforma está em andamento para oferecer mais qualidade nas aulas de musculação, ginástica, treinamento funcional e de zumba. “Reclamar da crise é fácil, acredito que falta mais vontade e atenção para perceber as oportunidades”, ressalta Greysemberg Garcia.

A crise econômica brasileira ficou mais aparente no início de 2015, quando todos os indicadores apresentaram piora. O principal deles, que é o PIB (Produto Interno Bruto), registrou uma contração de 3,8 %. “Na prática, isso significa que ficamos mais pobres e o resultado disso é um aumento do desemprego, além da redução dos investimentos para 2016 e, pelas previsões, até meados de 2017”, explica o economista e professor da Universidade do Estado de Mato Grosso, Feliciano Azuaga.

Mato Grosso também foi atingido, mas a força do estado é algo que tem se sobressaído no cenário nacional. Segundo dados do IBGE, nos últimos 20 anos ele se destacou como a unidade federativa que teve o maior crescimento de renda per capita no Brasil. Por ter uma economia baseada no agronegócio, que depende mais do mercado externo, o que torna a economia local mais resiliente, o estado demorou um pouco mais para sentir os efeitos da crise. “Outro fator é que a gestão fiscal estadual é mais equilibrada que em outros estados, que entraram em default, como o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul, que inclusive vêm tendo dificuldades de pagar a folha dos servidores públicos”, detalha o economista.

A força do mato-grossense

Esta capacidade de superação também é resultado de uma característica peculiar ao mato-grossense. Desde o século XVII, o estado passou por vários ciclos econômicos e, sempre ao final de cada um, a população buscava alternativas de geração de renda. “Assim foi no ciclo da mineração, da ocupação extrativista e nas crises do setor agrícola. Outra característica importante das pessoas que aqui vivem é o componente desbravador, que permite identificar novas oportunidades de negócios e desenvolvimento em regiões, que até pouco tempo atrás tinham pouco potencial econômico”, destaca Feliciano Azuaga.

Para o economista, o perfil empreendedor do mato-grossense permite antecipar tendências e apostar em atividades econômicas com um grande potencial de expansão. Azuaga pondera, porém, que esta condição deve estar aliada à busca por conhecimento. “Entretanto, no cenário atual, o perfil desbravador deve estar acompanhando de muita informação para tomada de decisão”, alerta.

O empreendedorismo representa um novo caminho para muitas pessoas que ficaram desempregadas ou que tiveram impactos negativos na renda como assalariadas. É, também, uma opção que torna a região mais forte, devido à diversificação da matriz econômica. “Além disso, há o aumento da competitividade, que gera produtos mais eficientes e mais baratos. A atividade empreendedora permite as pessoas colocarem suas ideias em prática e contribuir diretamente com a geração de renda para sociedade”, ressalta o professor da Unemat.

O conceito de startup defende que toda ideia pode ser transformada em um negócio de sucesso, dando a qualquer um a oportunidade de se tornar empreendedor. Seguindo este conceito, os irmãos cariocas Leandro Penha e Roberta Penha decidiram abrir uma loja de artigos esportivos em Cuiabá, que será inaugurada no dia 12 de maio. São mato-grossenses de coração, com mais de 16 anos morando no estado. Ele é formado em Rádio e TV e está cursando Engenharia Civil e ela é jornalista, atua como assessora de imprensa. “Estamos apostando em algo diferente e a expectativa é grande”, conta Leandro.

Mais saúde e bem-estar

O aumento dos grupos de caminhada, corrida e outros treinos ao ar livre motivou os sócios a entrarem no mercado de saúde e bem-estar. Para começar o empreendimento, eles investiram cerca de R$ 200 mil para reforma do prédio alugado, aquisição de móveis e materiais esportivos. “É uma oportunidade de negócio, mas também de incentivar a prática de exercícios físicos e promover saúde”, afirma Roberta Penha.

A crise econômica também não intimidou os irmãos, que acreditam na força do conhecimento e na dedicação ao trabalho como principais instrumentos de sucesso. O diferencial, de acordo com Leandro, não pode ser esquecido. “Tenho a ideia de, futuramente, implantar o sistema delivery e também pretendo contribuir com os atletas locais por meio de patrocínio”, almeja.

O mercado de saúde está mesmo em alta. Dados da Euromonitor International, empresa global de pesquisa de mercado, apontam que, até 2017, as vendas de produtos relacionados ao bem-estar, em todo o mundo, representarão um faturamento médio de US$ 1 trilhão. Somente Brasil e China devem adicionar aproximadamente US$ 103 bilhões em novas vendas para a indústria deste segmento. Segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), só no ano de 2013, o setor que engloba esporte, saúde, beleza e lazer apresentou o melhor resultado em faturamento, com 23,9% de crescimento.

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