Polo de Gastronomia cria expectativas positivas entre os moradores de Belém

O Polo de Gastronomia da Amazônia, que vai funcionar no Complexo Feliz Lusitânia, no bairro da Cidade Velha, em Belém, será gerido pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia (Sedeme), com apoio da Secretaria de Estado de Turismo (Setur). A proposta é destinar o espaço para a consolidação do saber gastronômico, valorizando o conhecimento e a prática da culinária e transformando Belém em referência internacional do setor. Na foto, Casa das Onze Janelas FOTO: CRISTINO MARTINS / ARQUIVO AG. PARÁ DATA: 28.06.2016 BELÉM - PARÁ

Belém (PA) – A proposta de criação de um polo voltado para os estudos gastronômicos da tão famosa culinária paraense gerou expectativa nos paraenses. A medida que oficializa o projeto foi oficializada recentemente pelo governador Simão Jatene e já começa a ganhar corpo, cheiro e sabor, com investimentos em vários setores importantes para o desenvolvimento do estado, tais como agricultura, empreendedorismo, educação, cultura, turismo, dentre outros.

Para a professora de turismo e mestra em planejamento e desenvolvimento sustentável da Universidade Federal do Pará (UFPA), Diana Alberto, a instalação do polo vai trazer não só enriquecimento cultural, como também benefícios econômicos, pois provocará a necessidade de investimentos em novas políticas públicas. “É um avanço para o Estado. Há quatro anos a nossa culinária virou vitrine e este projeto mostra a consolidação deste fato. É preciso entender que o turismo tem várias vertentes, imaterial e material, e nesta conjuntura a gastronomia é uma das mais importantes”, ressalta.

O Polo de Gastronomia da Amazônia, que vai funcionar no Complexo Feliz Lusitânia, no bairro da Cidade Velha, em Belém, será gerido pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia (Sedeme), com apoio da Secretaria de Estado de Turismo (Setur). A proposta é destinar o espaço para a consolidação do saber gastronômico, valorizando o conhecimento e a prática da culinária e transformando Belém em referência internacional do setor.

O projeto agrega oportunidades de empreendimento nos setores de alimentos, serviços e turismo, beneficiando a cadeia produtiva ligada à gastronomia. A escola de gastronomia, o laboratório de alimentos e o restaurante se conectam para criar um só ambiente de aprendizado, inovação e degustação.

Ivan Costa é moradora do bairro mais antigo da capital há 45 anos. Para ele, o Polo de Gastronomia também vai repercutir positivamente na segurança pública, porque estimula o empreendedor a ocupar novos espaços. “A criação do polo será uma ótima oportunidade para o turismo e para os negócios, não só do Estado, como também do bairro. A população e o Estado têm maturidade para um debate democrático sobre este assunto. Será um estímulo ao resgate da qualidade de vida no bairro, sem esquecer os demais moradores dos bairros próximos e ilhas”, diz.

Roberto Ferreira, presidente do Conselho Diretor do Centro do Empreendedorismo da Amazônia e sócio proprietário da Sol Informática, concorda com Ivan. “Sem sombra de dúvidas, essa é uma matriz de geração de emprego e renda de fácil aplicação e muito oportuna para o momento econômico crítico pelo que o Brasil e nossa região estão vivendo”, afirma.

Insumos

Thámara Almeira é professora do curso de Gastronomia da Universidade da Amazônia (Unama) e gastrônoma pós-graduada em Cozinha Profissional e Gestão Empresarial. Ela acredita que o espaço vem para coroar todos os títulos que a gastronomia paraense já alcançou. Entre eles, o de cidade-membro da Rede de Cidades Criativas, concedido ano passado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

“Este projeto é importante porque temos uma infinidade de insumos que na maioria das vezes são mais usados pelas pessoas de fora do que por nós mesmos, paraenses. Esse centro vai possibilitar o estudo desses insumos, incentivar a qualificação de profissionais da nossa região e permitir que as pessoas experientes, principalmente do interior, repassem os saberes culturais para nós, porque quem não tem qualificação necessária não pode entrar na academia para compartilhar os conhecimentos. Uma índia, por exemplo, que tem hábitos de trabalhar com pimenta, poderá transmitir os conhecimentos no centro. Ele virá para por em prática tudo o que podemos absorver na nossa gastronomia”, pontua.

Esta é a mesma expectativa do pesquisador César Mendes, empreendedor no setor de cacau, que enxerga no Polo de Gastronomia a inclusão das populações tradicionais e dos pequenos produtores rurais, que passam a ter estímulos para valorizar a floresta em pé. “Este projeto poderá ser o promotor ou um grande ator de desenvolvimento sustentável para a Amazônia. O cacau para o ribeirinho é inclusivo social e ambientalmente. Muitas vezes as pessoas das comunidades não são assistidas por políticas públicas, principalmente pelo isolamento geográfico, e o cacau e as especiarias da floresta se tornam meio e acesso dos direitos de cidadania, além de ingrediente talvez da iguaria mais apreciada no planeta”, raciocina.

Do ponto de vista acadêmico, o projeto é auspicioso. Com a instalação de faculdades de gastronomia em Belém, os alunos começam a desenvolver projetos dentro das cidades. “Houve uma mudança de comportamento nas pessoas, que hoje já têm um cuidado maior de escolher onde vão comer. Muitas pessoas ainda estão desinformadas do que vai ser esse centro, e é importante que elas conheçam. O ponto principal será a continuidade nos estudos. Atualmente, a pessoa que sair da academia tem poucas opções de estudo na nossa área, mas com o centro não. Ele possibilitará que os estudos continuem, e isso é uma grande perspectiva para nós. Além disso, muitos estudiosos de fora virão para enriquecer e contribuir com o nosso conhecimento”, conclui Thámara.

Turismo

O estudante Igor Nunes vai prestar vestibular no fim do ano para o curso de gastronomia. Fã da culinária paraense, desde os 12 anos ele se aventura em receitas e, hoje, é um dos jovens entusiasmados com a criação do Polo de Gastronomia da Amazônia. Ele acredita que, a partir deste projeto, os paraenses e as pessoas de outros Estados terão um espaço a mais para discutir o assunto e criar novidades. “O centro vai atrair olhares, vai mostrar que a gastronomia paraense vai muito além do tacacá, do açaí, da maniçoba. É possível criar, e muito, em cima de todas essas ideias”, opina.

A advogada Paula Zumero comemora o fato de a gastronomia ser vista como arte, a partir deste novo conceito proposto pelo Polo. Ela defende que a culinária é a maior expressão de identidade cultural de uma cidade. “É pelo que somos conhecidos, e acho que posso dizer, famosos. Basta ver que a piada mais frequente a nos rondar é aquela que diz que paraense se reconhece em qualquer aeroporto do mundo por estar sempre carregando um isopor! Na minha opinião, é aí que entra o projeto”, ressalta.

Segundo o Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Estado, Belém tem cerca de 150 meios de hospedagem. A maioria é usada apenas como trânsito, ou seja, o hóspede chega, passa uma noite na cidade e vai embora em seguida. Para o diretor jurídico do sindicato, Fernando Soares, a expectativa é que o investimento alavanque também os números do setor e traga a instalação de novos empreendimentos na cidade. “Temos exemplos de outras cidades onde este tipo de turismo gastronômico é forte, como é o caso de São Paulo. Este espaço pode trazer eventos, cursos para a cidade e novas propostas de bares e restaurantes”, aposta.

Paraense que mora no Rio de Janeiro há 54 anos, Tereza Santana ficou feliz ao saber que a Casa das Onze Janelas está com este propósito de projeto. Visitando o Complexo Feliz Lusitânia com os irmãos, que moram em Belém, ela vê o polo como um avanço para o Estado. “As pessoas não vão precisar mais sair daqui para ir estudar lá fora. Nossos profissionais vão ser genuinamente daqui mesmo”, pondera.

Outra entidade que está otimista é o Sindicato dos Taxistas do Município de Belém e do Estado do Pará (Stabepa). Segundo o diretor de comunicação e imprensa da entidade, Francisco Neto, o polo vai possibilitar mais investimento na capacitação dos taxistas. Atualmente, já existem mais de 1,5 mil profissionais do ramo aptos e certificados para atender ao público de fora. “Fizemos cursos com o Sebrae e com a Escola de Governança. Temos vários profissionais treinados para passar informações turísticas. Somos quase guias da nossa cidade”, diz.

Segundo Francisco, desde que começou a valorização da culinária paraense, o trabalho dos taxistas na capital só aumentou. “Tem cooperativa que faz parceria com vários eventos gastronômicos que ocorrem na cidade. Sempre levamos o pessoal para os eventos. Além do mais, quando um turista vem para Belém, sempre pede uma esticadinha ao Ver o Peso, à Estação das Docas”, completa. Atualmente, Belém conta com 5.425 táxis e 8 mil taxistas.


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