Artigo | Carta aos chilenos

Por Celson Bianchi


Dia desses percebi que havia alguma novidade no céu. Não era ruído, por isso não doía aos ouvidos, mas incomodou as vistas e fez fechar a garganta, numa sensação mais estranha que o tal carcinoma a que fui acometido antes daquela fatídica forma de me despedir de todos.

Apesar das sensações estranhas, olhei fixamente o que via no ar. Passou rápido, óbvio, mas me prostrei com um olhar equidistante. Veio um filme à cabeça, em que o roteiro eram os sete mandamentos que praticávamos desde a pequena Marília até a gigante Mercosul.

A mudança começava ali. Letras já não tinham significado amplamente divulgado, mas para bom entendedor ficava claro que já não conjugam o nosso português. LATin AMerican Airlines é bonito. Mas revela a pequenez do cone Sul, que se sustenta na língua do Norte com o discurso de ser ´gigante’ e ganhar mercado.

Ledo engano. O nosso primeiro mandamento já dizia: nada substitui o lucro. O dinheiro é consequência de um trabalho humano, sincero e que preza quem o mantém. E isso requer tato.

Chic não é ter nome em inglês. Chic é oferecer tapete vermelho no embarque, balinha de boas-vindas, fones de ouvido para se descontrair e uma revista com conteúdo que agrade o nosso povo. Mas tudo isso acabou. Nem a elegância no corte do vestuário dos tripulantes foi mantido. Antes tínhamos até capas, com um significado mais do que justo. Hoje uniformes simples e sem sal.

Esqueceram que voar é emoção. Esqueceram o nosso segundo mandamento: em busca do ótimo não se faz o bom. Aviação exige conexão. Quem está no comando precisa ter a visão de um piloto: ampla e limpa. Mas não pode esquecer que essas duas características, do alto, também remetem a um sonho. Isso é o que também vive quem viaja, por querer matar a sede da saudade, a fome pelo trabalho ou a paz de uma pausa.

Tudo isso começa quando a pessoa toma um assento. Mas como ter tranquilidade se ele já não inclina tanto? Os bons momentos dependem ainda de tratamento com cortesia, que dificilmente ocorre diante da sobrecarga da equipe a bordo. E a limpeza? Essa é fundamental, mas que parece esquecida em meio à pressa.

O mesmo digo em relação aos equipamentos. Avião é filho para um pai; é cavalo para o vaqueiro; é faca para o cozinheiro. Mas agora virou número para uma companhia. Só há preocupação em padronização para economizar da manutenção. Nesta área não pode haver esse pensamento. O motivo está em um terceiro mandamento: mais importante que o cliente é a segurança.

Fiquei curioso em saber os motivos de tanta mudança em tão pouco tempo. Sei que o tempo anda nublado e as nuvens ainda estão turvas por conta de problemas na economia. Disso eu entendo. Assim como as rotas do ar, muitas vezes tive que mudar de planos por conta das turbulências do cotidiano. Mas diante de tudo isso aprendi, e fiz constar em um dos mandamentos, que a maneira mais fácil de ganhar dinheiro é parar de perder.

É um círculo vicioso. Se perde porque não é bom, porque algo mudou para pior. Em um país do tamanho do Brasil, o avião é elemento imprescindível para conectar pessoas. Essa é a nossa vocação. É preciso pensar muito antes de agir, eis o quinto mandamento. Adotar essa postura é o mesmo que um ditado antigo do interior: só case se estiver pronto para voar. Caso contrário, um dos dois sairá perdendo no relacionamento.

Foi o que aconteceu. Ter humildade é fundamental para aceitar que isso ocorreu. Aliás, esse é outro mandamento que sempre procurei perseguir. Aceitar o erro e corrigi-lo é o melhor caminho. Exemplos não faltam. Temos uma identidade que está se perdendo. Temos passageiros que estão ficando desamparados. Isso preocupa muito. Até porque conquistamos essa Fidelidade, que agora está se dissipando em meio a uma confusão tecnológica e alianças que não interessam nosso público.

É preciso ter discernimento. Quem não tem inteligência para criar tem que ter coragem para copiar. É o nosso sétimo mandamento, mas não menos digno. Ele existe para ser colocado em prática quando necessário. Mas copiem dos bons. Caso contrário, daqui de cima, apenas lamentarei pela vermelha, que sobrevoou os Andes, se pintou de azul, e não soube mais voltar.

Saudações,

Rolim Amaro*


*Celson Bianchi, 40 anos, jornalista e antigo apaixonado pela TAM.


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