Artigo | Atacarejo estimula o crescimento de receitas do segmento supermercadista


Por José Roberto Securato Junior e Beatriz Dietrich


O modelo de supermercado “Cash&Carry”, também conhecido como atacarejo, tornou-se, para muitos consumidores, a alternativa de substituição aos tradicionais hiper e supermercados.

O atual cenário macroeconômico reduziu o poder de compra da população e forçou uma mudança nos hábitos de consumo de muita gente: a sensibilidade ao preço aumentou, o pagamento em dinheiro voltou a ser um importante meio de troca e a estocagem e compras coletivas são práticas cada vez mais comuns para fugir dos valores exorbitantes dos alimentos.

Na última década, novos formatos de supermercado surgiram como o grande atacadista, o atacarejo, os hiper e supermercados, a volta dos mercados de bairro e, mais recentemente, o conceito do minimercado, focado nos hábitos de consumo e na renda de um bairro específico. Enquanto cada formato possui uma abordagem fascinante e todos merecem consideração, os atacarejos apresentam um layout de loja mais simples, mix de produto reduzido e localização em regiões mais distantes dos centros urbanos.

Os atacarejos apresentam uma forte expansão e ainda podem crescer. Segundo dados da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), a operação foi responsável por 18,5% do faturamento das empresas supermercadista em 2013 e impulsionou o crescimento de 3,1% do segmento de atacadistas e distribuidores em 2015. Conforme o ranking da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (ABAD), em parceria com a Nielsen, o faturamento deste nicho cresceu 12% entre 2014 e 2015, período que contou com a inauguração de, aproximadamente, 50 novas lojas no Brasil.

Apesar desta evolução, o segmento ainda possui menor penetração nos domicílios do que os outros modelos: apenas 36,8% dos lares brasileiros compram no atacarejo, contra 98,7% dos tradicionais.

A força do atacarejo também é comprovada por números do relatório do Citi. Enquanto as receitas do “Extra” e do “Pão de Açúcar” cresceram apenas 2,1% no primeiro trimestre de 2016, em relação aos três primeiros meses de 2015, a do “Assai”, bandeira de atacarejo do “GPA”, aumentou 36,2%, se comparando ao mesmo período.

Nos atacarejos, normalmente instalados em grandes galpões, os produtos são dispostos em pallets, dispensando a necessidade de grandes estoques. O manuseio das empilhadeiras para o picking das quantidades solicitadas é realizado a qualquer hora, reduzindo custos de mão de obra. Além disso, as lojas são localizadas em bairros, longe de grandes centros comerciais, em metros quadrado mais barato das cidades, e sem a demanda de custos com serviços.

O crescimento deste segmento pode ser explicado por algumas mudanças no comportamento dos consumidores que estão com orçamento mais apertado e precisam se “blindar” da recessão:

1 – Preço, preço, preço

A sensibilidade ao preço aumenta em tempos de recessão. Este modelo possui vantagens em sua estrutura, que os permitem cobrar valores, em média, de 15% a 20% mais baixos (em alguns casos, chegando a 40%) do que os supermercados tradicionais. A indústria, muitas vezes, se vale deste canal e promove seus produtos com custos competitivos e aproveitam, também, para praticar descontos com o fornecedor.

2 – Empreendedorismo como alternativa de renda

A abertura do próprio negócio tornou-se a única opção dos muitos desempregados. O primeiro trimestre deste ano apresentou um aumento de 11,2% na taxa de desemprego – 11,2 milhões de desempregados – o maior índice desde 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  Muitos deles são pessoas com alta qualificação, com um tempo considerável nos seus respectivos empregos e, ao serem desligados, têm direito a indenizações razoáveis.

Como alternativa de renda, aproveitam o montante recebido para abertura de seus próprios negócios: segundo informações da Serasa, das 1.963.952 novas empresas abertas em 2015, aproximadamente 160 mil eram do ramo de serviços de alimentação. De acordo com dados do “Global Entrepreneurship Monitor”, a proporção de pessoas que decidiu empreender por necessidade no Brasil aumentou de 29%, em 2014, para 44%, em 2015.

3 – Organização na hora da compra

Antes, local de compra de pequenos comerciantes, os atacarejos passaram a ser um canal bastante procurado por muitas famílias. Em busca de descontos, os consumidores deixam a conveniência de lado e desapegam-se das marcas mais conhecidas, processo conhecido como trend down.

Este comportamento é resquício da cultura inflacionária dos anos 80 a 90 e aparece quando a recessão econômica é intensificada: a alta taxa de juros pressiona os consumidores a ajustarem o orçamento familiar e a se organizarem antes de ir às compras.  Comprar em maior quantidade para a estocagem domiciliar e formar um “clube de compras” são práticas cada vez mais comuns, aproveitando os descontos em volume.

De acordo com o ranking ABAD/Nielsen, os atacarejos, em 2014, incorporaram 1,4 milhão de novas famílias à carteira de clientes.

4 – Forma do pagamento

Em função da margem apertada, o pagamento para a maior parte das promoções concedidas é realizada somente em dinheiro, principalmente por causa dos altos custos relacionados aos cartões de crédito. Tal prática vai de encontro à natureza dos negócios informais, que abrangem um expressivo público deste modelo de supermercado.

Segundo o diretor financeiro de uma rede de atacadão, por exemplo, doceiras e salgadeiras representam, em média, 70% que buscam melhores preços para não repassar a alta destes ao consumidor final.

A migração dos consumidores às opções mais baratas de atacarejos criou um novo nicho de supermercados e tornou-se muito competitivo em relação ao modelo de multivarejo, tornando cada vez mais difícil aos comerciantes protegerem suas margens e, assim, reagirem a este novo concorrente cheio de promoções agressivas.

Para capturar o consumidor focado em preço, o “Extra”, por exemplo, já faz ofertas permanentes e não mais em dias específicos da semana.

Com o objetivo de aumentar o tráfego das lojas, os super e hipermercados investem na modernização dos espaços físicos, elevando o nível dos serviços e provendo maior experiência aos consumidores. Segundo dados do relatório do “Deutsche Bank”, até o fim de 2015, o “GPA” investiu algo em torno de R$ 100 milhões na revitalização de 58 unidades do modelo multivarejo, o que acelerou as vendas em 10 p.p. quando comparado às unidades não modernizadas.

O atacarejo criou um nicho competitivo no momento de recessão. Em contraponto ao desempenho negativo de muitos setores do varejo, este modelo é um dos poucos que se beneficia do cenário pessimista, tornando-se o principal impulsionador do segmento na atualidade.


  • José Roberto Securato Junior é vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo – IBEVAR
  • Beatriz Dietrich é colaboradora do IBEVAR

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