OPINIÃO | Uma crise, muitas relações e uma política provinciana


Por Ricardo Callado


O clima político em Brasília anda pesado. É uma guerra entre comadres e compadres. Todos os personagens têm alguma relação bem próxima, ontem ou hoje, e juntos chegaram ao poder.

Já vivemos outros momentos em que as relações de bastidores entre Executivo, Legislativo Judiciário e Ministério Público causaram crises políticas. Grampos, denúncias, corrupção estão novamente na pauta e essas relações estão agindo novamente

A política de Brasília é provinciana. Todos se conhecem e se relacionam. Os grupos se misturam. Antes, quando eram apenas Rorizistas e petistas, até que existia uma separação. Hoje, estão todos juntos.

Celina veio do berço rorizista. Foi secretária da Juventude de Joaquim Roriz e chefe de gabinete da então deputada distrital Jaqueline Roriz. Celina foi eleita presidente com o apoio do governador Rodrigo Rollemberg e uma das primeiras lideranças a apoiar sua campanha de 2014.

Rollemberg, já em 2010, antes de deflagrar a operação Caixa de Pandora, ensaiou uma aproximação com Joaquim Roriz. Queria sair candidato ao Senado na chapa do ex-governador, mas se afastou e desistiu da união política quando sugiram as primeiras gravações de Durval Barbosa.

Rollemberg então caiu no colo do PT e apoiou Agnelo Queiroz. Na chapa, ainda tinha o rorizista Tadeu Filippelli como vice-governador, e o ex-petista Cristovam Buarque como companheiro no Senado.

Os quatro chegaram juntos ao poder. Hoje, estão todos em campos opostos. Com a chegada de Agnelo ao Buriti, houve uma fragmentação política. Sumiram-se grupos e lideranças. Brasília não tem alguém que dê um freio de arrumação e coloque a casa em ordem.

No governo petista, Celina e Liliane ficaram como vozes de oposição. Militaram até no mesmo partido, o PSD, comandado pelo rorizista Rogério Rosso, que apoiou Rollemberg. Depois seguiram caminhos diferentes. Celina se aliou a Reguffe e Cristovam no PDT, e hoje está no PPS. Já Liliane foi para o PRTB do ex-senador Luiz Estevão. Hoje está no PTB de Gim Argello.

Rollemberg rompeu na campanha de 2014 com Agnelo, mas sustentou boa relação com o PT, mantendo inclusive quadros do partido em cargos importantes na estrutura do governo de Brasília.

A partir daí, o governador eleito se aproximou de Celina. Outro personagem é Raimundo Ribeiro, que foi líder do governador Rollemberg até o ano passado. Após deixar a liderança do Buriti, Raimundo foi sendo empurrado aos poucos para a oposição.

Sobrou até para o atual líder do governo, deputado Júlio César Ribeiro. O parlamentar sempre teve resistência entre os conselheiros do governador Rollemberg. Quanto mais Celina e Raimundo se distanciavam do governo, mais o PT e Liliane Roriz ampliavam o diálogo com o Buriti.

Um dos fatos mais estranhos nessa confusão toda, onde adversários históricos se unem e aliados brigam entre si, foi Liliane gravar o braço direito de seu pai, Valério Neves, e colocá-lo no olho do furacão. Valério sempre foi uma das pessoas mais fiéis da Família Roriz e é fiel depositário de segredos políticos.

A crise dos grampos, num primeiro momento, resolve vários problemas para Rollemberg. Tira de cena as principais vozes de oposição na Câmara Legislativa, Celina, Raimundo e o deputado Bispo Renato Andrade. Tem a oportunidade de trocar seu líder de governo e ainda tira o foco da crise do Buriti.

Além disso, desmoraliza a CPI da Saúde, que tanto foi combatida pelo governo para que não saísse do papel. Deputados foram castigados com exonerações de indicados no Executivo. Um dos casos mais emblemático foi a retaliação contra o deputado Lira, que reclamou em discurso no plenário. O que se escuta nos gabinetes do Buriti é a frase: “ou é governo ou não é”.

Essa crise ainda deve ir muito longe. Vai fazer um estrago na Câmara Legislativa. Como a política de Brasília é provinciana e todos se relacionam entre si, o Buriti não deve sair desse episódio sem arranhões e o governador Rollemberg sabe disso e se pintou para guerra.

Essa confusão ainda vai demorar meses e vai influir diretamente na eleição de 2018. Quem tiver bem longe dela vai se dar bem. A briga entre Legislativo e Executivo é rancorosa e vai ser turbulenta e nessa disputa não haverá vencedores.

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