Museu da Memória Rondoniense conclui digitalização de 10 mil documentos

Foto: Divulgação

Daqui para frente, o manuseio de documentos com um século de história de Porto Velho será cada vez menor.  O Museu da Memória Rondoniense, instalado no Palácio Presidente Vargas, em Porto Velho, concluiu a digitalização de dez mil documentos disponíveis para a consulta da população.

Mapas, jornais, documentos oficiais, plantas da cidade e da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e outros papéis da primeira metade do século XX estão numa das salas maiores do andar térreo palaciano.

“A digitalização começou em março e terminou no início de novembro. Alunos do Ensino Médio e universitários, alunos de graduação, doutorado e o público logo se interessaram pelo trabalho”, comentou a historiadora Elis da Silva Oliveira, do Centro de Documentação do museu.

Algumas palavras desta reportagem utilizam a grafia do século passado e aparecem em itálico.

O jornal Alto Madeira, que inteira um século de circulação em 2017, teve o privilégio de ser o primeiro digitalizado. Na edição nº 139,anno II de 19/9/1918, publicava na 1ª página a secção “Pelos Estados”. Em destaque, uma nota informava que “as tropas inglesas, naoffensiva, já derrotaram 42 divisões alemãs”.

Noticiava o afundamento de uma canoa carregada de macaxeira para fabricação de farinha e alertava a respeito da “imprudência de atravessar o (rio) Madeira em embarcações pequenas carregadas”. “Repetidas vezes, isso tem causado sinistros fataes. Bom que houvesse cuidado da tripulação e carregamento para evitar esses desastres”.

No mesmo número, o jornal oferece como “prêmio de natal” uma viagem de ida e volta em 1ª classe numa das embarcações da Amazon River, a Manaos. O leitor trocava cupons por um cartão numerado e concorreria pelo sorteio da loteria de natal.

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Coleções inteiras ainda serão digitalizadas na segunda fase desse trabalho

AGUARDANDO PARCERIAS

O museu aguarda parcerias e equipamentos para iniciar serviços semelhantes com outros jornais.

O Instituto Federal de Rondônia (Ifro), que já faz digitalização no interior do estado, será um dos parceiros. Os mapas originais permanecerão dobrados, pois assim se encontram desde a sua confecção.

Nada mais ficará depositado em caixas plásticas, que sujeitavam o papel à umidade e facilmente o deterioravam.

O papelão substitui o plástico na guarda desses documentos. A mapoteca é riquíssima. A digitalização foi supervisionada pela empresa Arquivar, de Belém (PA), trazida ao museu pela concessionária Santo Antônio Energia, em convênio com o governo estadual.

RUAS DE PORTO VELHO

“Estamos felizes com a conclusão dessa fase de resgate documental, nossos profissionais tudo farão para tornar o museu o lugar ideal de pesquisas para a sociedade de Porto Velho, da Amazônia e do País”, destacou a diretora, paleontóloga Ednair Rodrigues.

Na edição nº 69, anno I, em 17 de janeiro de 1918, o Alto Madeira mencionava “a conquista do sertão, a evangelização do gentio, a administração pública e os sonhos de independência” para criticar a denominação de ruas de Porto Velho.

Reivindicava nomes de para personagens do ciclo colonial brasileiro. Assim: Rua Padre Antônio Vieira, Rua dos Bandeirantes, Rua dos Tupis, Rua Gomes Freire, Marcos Noronha, Tiradentes e José de Anchieta. “Do período da Regência foi esquecido Padre Diogo Feijó, e do 2º Império, Rua Barão de Cotegipe, ou Marquez do Paraná. Ou Bernardo de Vasconcellos, para que resulte completa a homenagem à intelectualidade”.

O jornal publicava uma frase em latim, no alto da 1ª página: Labor ominia vincit improbus (“O trabalho conquista tudo”).

Ao lado da nota da novena de São Sebastião, de ponta a ponta da 2ª página, o jornal estampava o Serviço Rádio-telegráphico, com notas diversas, entre as quais, as cotações da banana (3$900) e borracha (mesmo preço). A moeda daquela época era conto de réis.

Na edição 69 noticiava no máximo em três linhas de matéria, bem semelhante ao que se vê atualmente nas redes sociais: sorteio militar, derrota dos revolucionários do Juruá, proteção à borracha, um deputado no banco dos réus (referente a Gilberto Amado, de Sergipe, que responderia a novo jury  “pelo assassinato do inditoso poeta Anníbal Theophilo”).

EM PORTUGUÊS E INGLÊS

A coleção de correspondência pessoal de museu é numerosa: centenas de documentos revelam o cotidiano regional nas línguas portuguesa e inglesa.

No texto em inglês, em 10 de outubro de 1914, o coletor do Amazonas, Clementino G. dos Santos, informava de sua ida ao Amazonas, “para se encontrar com o governador e lhe reivindicar a gratificação de uma viagem de 1ª classe no navio Tupy”.

Em 24 de janeiro de 1918, uma mensagem informava as produções de látex nos seringais Jamary e Machado ao senador Azeredo, no Rio de Janeiro.

Em 1929, o engenheiro fiscal João da Silva Campos enviava correspondência ao presidente da Guaporé Rubber Company, coronel Paulo Saldanha, tratava do embarque de cargas de borracha pelo porto de Guajará-Mirim.

“É uma viagem no tempo muito agradável, compare os originais com a qualidade do digitalizado”, sugeriu a historiadora Elis Oliveira.

Uma das plantas da mostra a estrutura de uma locomotiva tipo Pacific, fabricada pela empresa The Baldwin Locomotive Works para a Madeira-Mamoré Railway Company.

Outra, da casa de empregados na Guardomoria de Porto Velho exibe detalhes da fundação ao madeiramento do assoalho (rés do chão) e telhado, é assinada pelo engenheiro-chefe J. M. Robinson e outros diretores.

Planta com o reconhecimento topográfico do traçado da Ferrocarril Guayaramerín-Riberalta (Bolívia) detalha as pontes de ferro construídas pelos ingleses no trajeto da Madeira-Mamoré. Assinada pelo engenheiro encarregado E. B. Karnoff, em escala ¾.

ONDE FICA

O Museu da Memória, administrado pela Superintendência da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer, fica no Palácio Presidente Vargas, na Rua Dom Pedro II, esquina com Rua José de Alencar. Está aberto das 8h às 18h, da segunda a sexta-feira.

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