Conjuntura & Atualidade | A morte de Zigmunt Bauman


Morreu nesta segunda-feira (9) em Leeds, na Inglaterra, aos 91 anos o sociólogo polonês, Zigmunt Bauman. Ele não foi apenas mais um acadêmico a pensar categorias explicativas ou decodificadoras da realidade. Foi expectador e vítima de muitas das atrocidades cometidas contra a humanidade durante o século XX. Viu o apogeu e a derrocada de grandes construções ideológicas. Mas, uma trajetória marcante que parece ter marcado a memória de Bauman foi a estruturação da cultura ocidental alicerçada sobre a produção e o consumo em larga escala. A reboque dessa realidade estruturante no campo material, um conjunto de instituições basilares foram gestadas para assegurar e proteger valorativamente esse modelo de mundo.

Da religião ao chão da fábrica, a sociedade se retroalimentava em todas as suas instâncias em pressupostos garantidores da solidez daquela arquitetura societária. Uma grande narrativa moral perpassava o campo objetivo e subjetivo do sujeito. O trabalhador existia em sua dimensão simbólica, não enquanto um mero proletariado ou engrenagem da indústria, mas, como um sujeito seguindo um desígnio, uma missão, um direcionamento legitimado pelas instituições humanas, mas que também, o habilitava as bonificações no campo espiritual.  Essa realidade sólida oferecia ao sujeito uma plausibilidade existencial do início ao fim da sua vida. Vivíamos em um mundo de certezas, no qual as instituições funcionavam como guardiãs das nossas convicções existenciais.  Bauman não pensou e analisou o mundo industrial apologeticamente, fez uma leitura sistemática do seu funcionamento e de suas estruturas.

Entretanto, Zigmunt Bauman não alcançou notoriedade e reconhecimento por refletir a sociedade moderna industrial, conseguiu despertar a atenção do grande público pelo seu olhar sobre a nova conformação da sociedade contemporânea, denominada pelo autor como sociedade “líquida”. Essa metáfora, manejada conceitualmente como uma categoria, uma ferramenta interpretativa dos tempos “pós-modernos” acabou por se tornar uma marca indelével das análises sociológicas de Bauman. O verbete “líquido” foi uma alusão inversa, um contraponto ao capitalismo industrial, que na sua perspectiva foi diluído numa estrutura fluida e complexa, assentada no indivíduo e no consumo emocional.

O mundo “sólido” era respaldado pelas instituições, estas orientavam e legitimavam os sujeitos sociais em suas trajetórias. Funcionavam como um “escudo” contra tudo o que ameaçava o campo simbólico cultural. Já no mundo “líquido” o sujeito goza de liberdade, mas não de proteção. A sociedade pós-moderna é caracterizada por Bauman como um mundo “desbussolado”, uma realidade do excesso, um cenário no qual cada indivíduo busca sustentação do seu equilíbrio numa subjetividade embutida nas múltiplas e efêmeras narrativas mercadológicas. Para Bauman a descartabilidade se sobrepuja a durabilidade, esse conceito não se aplicaria somente nas formas de consumo dos indivíduos, mas também às suas relações, crenças, valores, desejos, etc.

O mundo líquido acontece no tempo presente. Com o fim das grandes narrativas o campo transcendente foi reinterpretado para as fruições e prazeres do mundo. Todas as nossas demandas podem ser providas por produtos ou serviços disponíveis no mercado. Gozar se tornou uma obrigação, enquanto sofrer uma opção. Não há espaço para a ignorância, todas as informações necessárias para auxiliarem o nosso discernimento estão disponíveis e acessíveis. Estamos inundados de informações, mas estamos nos afogando por falta de sentido e sabedoria. Assim, Zigmunt Bauman, entremeio a liquefação da vida contemporânea, sinalizou possibilidades de existir e compreender um mundo em transformação. Zigmunt Bauman foi um daqueles poucos que vieram, deixaram a sua marca e partiram suave rumo ao panteão das grandes personalidades humanas.


Paulo Passos é graduado em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política, doutor em Ciências da Religião e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.


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