Marco Antônio Pontes | O poder paralelo das corporações

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes – marcoantoniodp@terra.com.br

 

Explodiu

Terminei a coluna da semana passada a constatar que o quentíssimo 2016 não queria terminar e afinal foi sucedido por um 2017 incandescente; depois, antevi explosões.

Pois não é que começaram?

Não falo da calamidade nos presídios, que faz tempo sobrevive aos ritos de passagem de cada réveillon.

Nem é só de segurança pública que trato ao registrar a grande explosão que inaugurou o ano na área metropolitana de Vitória e outras cidades espírito-santenses: o paroxismo do caos urbano origina-se de outro fenômeno, anterior e bem conhecido.

Pressões corporativas

Refiro-me ao corporativismo de proeminentes categorias profissionais, grupos com grande poder de pressão, capazes de tornar reféns agentes públicos e governos. Os quais se ocupam em disputar e manter o poder, não raro em benefício próprio. Ou, apanhados em delito, usar o mesmo poder para escapar da Justiça e engambelar a opinião pública.

Massa de manobra

Muitas dessas corporações descolaram-se das reivindicações das respectivas categorias profissionais e conformaram organizações para-partidárias cujos líderes, associados ao poder político, aceitam prazerosamente o ‘aparelhamento’ e agem em função dessa perversa aliança, contemplando apenas subsidiariamente as aspirações dos que, supostamente, representam. Que se convertem em massa de manobra, quase sempre inconscientes desse papel ou anestesiados com as sobras do banquete.

 (In)justiça alternativa

Tais grupos têm em comum a insensibilidade ante a condição dos demais, a menos que eventualmente aliados e um solene desprezo pelos segmentos que não se aglutinam para exercer similar pressão – quer dizer, quase toda a sociedade.

Pouco importa sejam legítimos os interesses originariamente representados: o sucesso corporativo e consequentes benefícios serão obtidos à custa daqueles que não dispõem de igual força; far-se-á a ‘justiça’ preconizada pelas corporações, nome alternativo da injustiça.

Briga fingida

É assim que se afirma um novo, decisivo agente econômico e político no capenga capitalismo brasileiro: as corporações, que aparentemente confrontam a elite econômica e fingem brigar com o poder político quando na verdade coonestam seu domínio, na medida em que monopolizam as atenções da mídia, sobrepõem-se à luta das demais categorias, ludibriam a opinião pública e afinal se contentam com as esmolas que lhes atiram os detentores do capital.

Prejuízo social

Essa partição do butim impõe enorme custo social.

Muitas vezes as greves deflagradas por sindicatos de servidores do estado, profissionais da saúde, professores e outros trabalhadores do setor público apresentam pautas pouco realistas e resultam em escasso ou nenhum ganho.

Ao fim e ao cabo, porém, fortalecem as corporações no diálogo com o poder e no processo emerge um conluio entre supostos adversários.

Pois os dirigentes do estado nada perdem ao eventualmente ceder: o custo será atribuído ao contribuinte.

Desastre anunciado

Há anos ocorrem episódios pontuais, mas ninguém atentou para o risco de eventual radicalização nos setores responsáveis pela segurança pública, nos quais a tácita aliança entre agentes públicos e corporativos fatalmente geraria tensões que fugiriam ao roteiro preestabelecido.

Foi assim uma crônica do desastre anunciado: difusamente percebido e jamais prevenido, ele teria mesmo de acontecer.

Lugar errado

Aconteceu no Espírito Santo, estado de pequenos território, população e fatia Pib brasileiro, que tem protagonizado modesto porém exitoso processo de desenvolvimento.

Seus recentes governos seguiram o receituário fiscal em voga e mantiveram as contas em dia, ao contrário dos vizinhos.

Por isso surpreendeu que justo na área metropolitana de Vitória, até então pouco conflitada, haja explodido a tragédia.

Cinismo inusitado

Explodiu com enorme ímpeto destruidor.

Não há registro na história do Brasil de população tão desamparada, tão à mercê dos bandidos. Houve formidável crescimento dos roubos, latrocínios, homicídios e emergiu a marginalidade, digamos, ‘eventual’ dos que aproveitaram o ensejo para saquear e furtar.

Também inusitado foi o cínico comportamento de membros da corporação policial-militar, mal escondidos atrás de suas mulheres, mães, filhas.

Melhor assim

Foi dito, e parecia óbvio, que o problema ter-se-ia resolvido de pronto se os familiares dos grevistas, em seus toscos bloqueios dos quartéis, fossem desalojados pelos destacamentos federais.

Mas compreende-se que hesitassem em usar a força: treinados para a guerra, com incipiente preparo em controle de tumultos, assumiriam grande risco num confronto do qual poderiam resultar feridos e até mortos.

Poder paralelo

Mesmo a tal custo a solução estaria aquém do problema. E será insatisfatório, embora benvindo, o acordo que terá encerrado a trágica semana dos capixabas (escrevo na madrugada de sábado; o pacto deverá confirmar-se pela manhã).

O problema está na inação dos governos ante a crescente dimensão dos conflitos urbanos. Na omissão da sociedade diante do morticínio – os crimes matam mais no Brasil de hoje que em qualquer guerra de nossa história.

O problema está, sobretudo, em nossa inabilidade de lidar com as corporações ditas sindicais, poder paralelo a conspurcar a legitimidade dos movimentos sociais.

Tresloucados gestos

Se não o explodiu, o recém-afirmado 2017 tocou fogo no ambiente político.

Incêndios calcinaram os sucessos do governo e sua base na semana anterior. E as vítimas agiram como as tresloucadas personagens das tragédias policiais, as que ateiam fogo às vestes.

Pois foi o próprio Executivo quem incinerou a credibilidade ao nomear um ministro para dar-lhe o ‘foro que livra do Moro’. E agora tem de apagar o fogo e correr atrás dela.

É fogo!

Os congressistas da base governista também brincaram com fogo.

No Senado povoaram a mais importante comissão, a de Constituição e Justiça, com personagens supostamente enredadas nas malhas da lei.

Na Câmara tentaram passar a toque de caixa uma ‘anistia’ das trampolinagens dos partidos políticos, subtraindo-os à ação dos tribunais.

Ao fugir da Justiça, deputados e senadores saltam da frigideira para o fogo. Enquanto isso a Lava a Jato e operações congêneres exibem reserva de combustível e lançam às chamas quatro cardeais do Pmdb, o presidente da Câmara, o atual e o ex-governador do Rio…

Retirada; estratégica?

Donald Trump recua após contundente derrota nos tribunais. Noutra frente, ao menos por enquanto verga-se ao peso dos interesses estratégicos dos Eua, no arreglo com Japão e China.

Tudo indica que o eficaz sistema de pesos e contrapesos da democracia estadunidense venceu os primeiros embates e assim o retrocesso (social, comportamental, ambiental) parecerá um mal menor, se afastar o caos.

 

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