Conjuntura & Atualidade | Depressão e a Medicalização da Vida


Uma das características marcantes de realidade contemporânea, é a profusão de que, para tudo há uma solução técnica, biológica ou química. Essa premissa gera uma falsa concepção da vida, na qual, o sofrimento não passaria de uma condição de inacessibilidade ao tratamento ou a substância correta. Um exemplo ilustrativo dessa questão foi o aumento estratosférico do consumo da Ritalina, que segundo reportagem da revista Veja, teve um crescimento 775% no Brasil nos últimos dez anos. Com o ritmo esquizofrênico ditado pelas novas tecnologias, associado a obsolescência que acompanha esta mesma dinâmica, se apropriar da realidade, é como tentar embarcar em um “trem em movimento”. Assim, para aqueles, sobretudo, as crianças, que se distraem por motivações próprias do universo lúdico delas, e perdem o “trem”, são diagnosticadas como portadoras de transtornos diversos.

O psiquismo sexual da criança deveria permanecer em um estado de latência até aproximadamente os 12 anos de idade. Essa obstrução do instinto sexual compreende um sofisticado mecanismo de defesa do Ego, propiciando a criança a atenção necessária para decodificação e incorporação da gramática simbólica da realidade. O capitalismo de consumo, buscando doutrinar novos adeptos aos seus postulados, introduziu um intenso processo de encurtamento da temporalidade do estado de latência, provocando como efeito imediato a erotização precoce das crianças. Estima-se que atualmente uma criança alcança o seu afloramento erótico aos 7 anos de idade. A criança que era seduzida pela ludicidade da infância, e dessa forma, incorporava as representações da vida brincando, são arrastadas por caudalosas forças subliminares que as fazem dispersar ante ao fantástico cardápio material do mercado.

A depressão também sofreu a incorporação de outros diagnósticos e tratamentos. Numa realidade assentada na compreensão do “consumo, logo existo”, uma fração importante dos casos de depressão atuais são decorrentes das idealizações mercadológicas frustradas. O processo de esvaziamento simbólico da vida começa ainda criança e se estende ao longo da existência. Para o sujeito depauperado de sentido subjetivo para alicerçar e dar sentido ao seu existir, basta adquirir uma mercadoria “personificada” e se apropriar dos seus poderes. Para Sigmund Freud, em sua obra clássica “O Mal Estar na Civilização”, viver pressupõe uma inquietação permanente. Porém, o ser humano, como ser gregário e produtor de cultura, construiu possibilidades afetivas, religiosas, ideológicas, etc, como mitigadoras desse mal estar. Assim, quando a depressão se instalava, o sujeito buscava em seu recolhimento, uma possibilidade de ressignificação da sua interação coletiva.

Hoje, o sujeito é convencido a se individualizar, a viver fora do seu ritmo, ensimesmado no tempo presente, a desejar mais, do que precisar menos, a reconhecer na descartabilidade a possibilidade do novo, a cultuar a estética em detrimento da ética, em substituir pessoas por coisas, em coisificar as pessoas em troca coisas, em orientar seus desejos pelas tendências do mercado, deprimir-se é algo inevitável.  Nesse cosmos artificialmente desumanizado, o deprimido retroalimenta a engrenagem, consumindo as panaceias da indústria farmacêutica. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as maiores causas de morte para o novo século serão a depressão e o suicídio. Se quando o sujeito está deprimido, a resposta socialmente aceita, não permite que este reflita ou refaça os rumos da sua vida, burlando os mecanismos psíquicos pela via do entorpecimento medicamentoso, a causa do processo depressivo continuará inalterada. Voltando a fazer aquilo que o fez parar, outra parte do seu organismo irá colapsar. Sem a oportunidade de escolher um novo rumo para a vida, o suicídio se tornará uma possibilidade cada vez mais atrativa.

 


Paulo Passos é graduado em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política, doutor em Ciências da Religião e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.


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