Conjuntura & Atualidade | Vida Para Consumo

 

 

 

 


O capitalismo pós-moderno alcançou um estágio de sofisticação tamanha, que colocou a criatura a frente do criador. Karl Marx, que na sua epistemologia materialista, pressupunha que o desenvolvimento de cada sociedade, bem como, as contradições e injustiças das mesmas, estavam atreladas ao modo como cada uma produzia a sua base material. Todavia, o momento atual do sistema capitalista parece ter colocado o consumo numa escala superior à produção. O consumo deixou de compor a base material da vida, ocupando um espaço como produtor de sentido e plausibilidade existencial.

Filosoficamente, muitas escolas e pensadores preconizaram o distanciamento do plano material como condição essencial para o real desenvolvimento do ser humano. Entretanto, as tecnologias atuais são capazes de sublimar os desejos mais contidos em algo concreto e objetivo. Dessa forma, o campo material é sacralizado, revestido por uma mística simbólica que se sobrepõe ao sujeito. Como boa parte das virtudes humanas se deslocaram para o mundo das coisas, a coisificação do ser humano torna-se uma meta, um propósito de vida. Assim, quanto mais sofisticado o sujeito for enquanto mercadoria, maior será a sua possibilidade de ser consumido, em ser desejado enquanto coisa.

Na tentativa de cuidar ou vender a sua autoimagem, de construir uma estratégia para se vender no mercado, o marketing pessoal descortina as intimidades dos sujeitos, como dizia Zigmunt Bauman, recriando uma sociedade confessional. Metaforicamente, a vida associativa contemporânea se tornou uma grande vitrine. As disputas e encaminhamentos da vida nessa grande e sortida vitrine se dão no sentido de ocupar os melhores e mais atrativos espaços aos olhos dos consumidores. A questão é que, os atributos a serem incorporados para habilitar o sujeito a fazer parte do cardápio, são definidos pelo próprio mercado. Ou seja, há uma ética que instrui os posicionamentos, as escolhas, os processos da vida para o consumo. Aqueles recalcitrantes, que se insurjam contra os valores sacrossantos do mercado, viram refugos, se tornam mercadorias avariadas, defeituosas, inaptas para o consumo.

A “coisa humana” não se relaciona no mundo social a partir da condição humana. Há uma cartilha mercadológica que prescreve o que se esperar das principais demandas humanas. No amor, para além do afeto e da cumplicidade, este só seria pleno com uma performance sexual cinematográfica, com jantar de velas todos dias, com viagens incríveis ou experiências radicais únicas. A saúde tornou-se sinônimo de magreza, de corpos torneados e esculturais, da ingestão de tudo, menos de comida de verdade, dos alimentos extraídos da natureza, por substâncias embaladas em potes, farelos energizantes, etc. No plano do dinheiro, precisamos de muito para valorizarmos pouco, um muito que não dá sentido, um muito que escraviza, que permite ao sujeito conhecer o mundo, mas se perdendo de si mesmo, em ser uma mercadoria forte, mas um ser humano fraco.

A era da informação não possibilitou ao homem mais sabedoria e sensibilidade. Quanto mais possibilidades de conhecimento produzimos, menos assimilamos, porque, tudo se encontra nas prateleiras, não fazem parte de nós, são mercadorias, apenas estão disponíveis no cardápio. Os reflexos disso são: a despolitização crônica da juventude, a produção crescente de lixo e resíduos destrutivos da natureza, a banalização da violência, a falta de sentido para a vida entre outros. Enfim, nesse novo mundo, do início ao fim da vida, o que conta são as experiências de consumo ao longo da marcha.


Paulo Passos é graduado em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política, doutor em Ciências da Religião e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.


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