Marco Antônio Pontes | O jogo, como se joga, no Brasil e nos Eua

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes – marcoantoniodp@terra.com.br


A senha do jogo

Parece até que o ‘primeiro-ministro’ de Temer deu a senha, naquele estranho ‘descuido’ em que desvelou o ‘toma lá, dá cá’ pelo qual se fazem ministros de estado.

Difícil acreditar que um político experiente, sagaz como Eliseu Padilha não soubesse da gravação de sua fala. Há quem jure que ele quis, sim, explicitar como se joga o jogo duro da política no semiparlamentarismo em que se converteu o perempto ‘presidencialismo de coalisão’.

Teria, em tal caso, a intenção de esclarecer as regras, vulgarizá-las com a exposição nua e crua, na expectativa de que afinal se afigurem normais, aceitáveis.

 

É assim mesmo

Faz sentido. Se “a mentira repetida muitas vezes torna-se verdade”, como queria Goebbels, a aceitação do jogo como é jogado dar-lhe-ia feição de normalidade: política é assim mesmo – eis o recado que se quereria passar.

Cara-de-pau

O certo é que desde aquele ‘vazamento’ as jogadas políticas exibem-se em crescente despudor.

Com a maior cara-de-pau admite-se que a escolha do ministro da Justiça fez-se para contentar o partido do governo na Câmara; por sua vez, parte da bancada não esconde que acha pouco e quer mais.

Ninguém parece preocupar-se com o papel decisivo do Ministério da Justiça no combate ao crime organizado que incendeia as metrópoles, no desarme das bombas de retardo instaladas presídios – importa é garantir posições no Executivo e no Congresso.

Menos mal

Na primeira entrevista (a Gerson Camarotti, da GloboNews) Osmar Serraglio, experiente deputado, testado como ressaltou na resistência a pressões durante a Cpi dos Correios (a que deflagrou o mensalão), proclamou isenção e apoio às investigações da Lava a Jato e procedimentos semelhantes.

Não há por que duvidar, liminarmente, do que disse. Resta conferir, na prática.

Melhor assim

Teremos novo ministro no Supremo Tribunal Federal coisa de mês e meio depois da morte trágica de Teori Zavascki; na substituição anterior perdera-se quase um ano.

Evoluímos, e outro bom sinal é que o “calouro” (apud ministro Marco Aurélio) haja-se comprometido, na sabatina pelos senadores, com teses caras à opinião pública e necessárias à faxina ética em curso.

Alexandre de Moraes declarou-se favorável à execução de sentenças penais tão logo confirmadas em segunda instância, revelou ter sido dos primeiros a preconizar colaborações premiadas e não fez promessa vazia ao hipotecar apoio à Operação Lava a Jato e similares, a julgar pelo estrito respeito, enquanto ministro da Justiça, à autonomia da Polícia Federal nas investigações do petrolão.

Discrição, cuidado

– Moraes não faz mais que a obrigação! – invectiva-me preventivamente a atenta leitora Sandra Alenquer, a cobrar-me abordagem do assunto.

Atendo-a, e concordo. Mas cumprir o dever é exceção nestes estranhos tempos.

Melhor acreditar na profissão de fé e torcer por que o ‘sucessor’ do ministro Teori emule sua discrição e o cuidado de só falar nos autos.

O que talvez seja querer demais, conhecido o temperamento do novo integrante do Stf.

Missão impossível

Duas vezes vencido pela Justiça na briga contra os imigrantes, Donald Trump desistiu de apelar à Suprema Corte. Certo temeria outra derrota, tão acachapante que lhe inviabilizaria a presidência.

Mas não se lhe atribua súbito ataque de bom senso.

De Trump só se pode esperar mais insensatez, como na substituição daquele assessor (para a segurança nacional!) que mentiu ao ser apanhado em conluios com os russos: o presidente disse que o substituiria por alguém muito melhor, mas o convidado recusou.

Acabou conseguindo um general experiente, talvez capaz de opor alguma serenidade aos desvarios do chefe. Tarefa difícil.

Velhice precoce

Já se cogita, ante o precoce acúmulo de trapalhadas, de que cedo ou tarde Trump sofra processo de impeachment.

Afinal, aquele exemplar sistema de pesos e contrapesos está dando conta do recado nestes trinta dias de governo atabalhoado, que já parece velho de décadas.

Teste decisivo

Vale lembrar que as instituições estadunidenses comprovaram-se eficazes num similar e decisivo teste em 1974, quando se livraram de Richard Nixon.

E nem precisaram concluir o processo: irrecorrivelmente apanhado em mentiras o presidente renunciou.

Efeito Nixon

No affaire Watergate não houve tempo (nem necessidade) de comprovar que Nixon sabia ou ele próprio determinara a espionagem na sede do Partido Democrata. Bastou mentir para encobrir a trapaça e o impeachment só seria evitado pela renúncia.

Sintomático: Trump mente tão escandalosa, desbragada e desavergonhadamente que até cunhou expressão para renomear a mentira: “verdade alternativa”.

 ‘Trumpicâncias’

            – Trumpicado, que palavra é essa que você inventou? – provoca-me Mário Arcanjo, persistente leitor e crítico.

Tem razão, o verbo ‘trumpicar’ não está nos dicionários mas pareceu-me adequado às monumentais trapalhadas de Donald Trump e aos desastres que ocasionam. Inventei-o por analogia com expressão popular dos anos 1960, “trumbicar”, a significar dar-se mal, fracassar. Como na frase atribuída ao apresentador de tv Abelardo Barbosa, o Chacrinha:

“Quem não se comunica se trumbica”.

 ‘Trumpicadas’

César Fonseca tem explicações originais para as ‘trumpicadas’ na economia:

“A emergência de Trump expressa a explosão das contradições do capitalismo ancorado em dívida pública impulsionadora de guerra entre aliados poderosos […]. O titular da Casa Branca instala a nova ordem, reinado de Murici (cada um por si). […]. Os Estados Unidos […] voltam-se para dentro com discurso nacionalista, populista. […] Pode pintar nova crise monetária global, se o juro alto atrair os dólares espalhados pelo mundo.”

Solução de emergência

De volta a nosso microcosmo: em cima do lance Roldão Simas Filho faz preciso diagnóstico e propõe solução de emergência à crise no abastecimento de água em Brasília.

– Ela não será vencida com racionamentos […]. Medida paliativa é necessária: o aproveitamento do lençol freático, com poços artesianos. Há capacidade técnica disponível em Caldas Novas.

Menos, não mais

Como se diz aí pelos grotões, Roldão “mata a cobra e mostra o pau”. Ensina como viabilizar alternativa mais rápida e barata que a captação no lago Paranoá, como anunciado.

Só acrescentaria que a falta d’água, aqui como alhures, mesmo a requerer medidas de emergência não se superará em definitivo com acréscimos da oferta, que cedo ou tarde se revelará inelástica. A médio e longo prazo será preciso conter a demanda via supressão do desperdício, mudança dos padrões de consumo e sobretudo reutilização sistemática das águas servidas.

Quer dizer: antes de produzir mais, há que gastar menos.

 

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