Marco Antônio Pontes | Derrapada machista, elite assustada. E uma esculhambação necessária

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes – marcoantoniodp@terra.com.br


Escorregão

Se queria homenagear as mulheres em seu Dia Internacional, o presidente Temer fez o oposto: escorregou no preconceito, deslizou no machismo e escarrapachou-se na vala comum em que se comprazem maridos-provedores e esposas-do-lar, tradição ainda viva no cotidiano brasileiro.

No dia seguinte tentou redimir-se nas redes sociais. Reconhecer o erro faz bem, porém o mal estava feito.

Machismo persistente

O presidente da República haveria de preparar-se melhor para o improviso, em vez de confiar na habitual fluência discursiva e na longa experiência.

Pois justo a longevidade, o pertencimento a geração em que a dominância do macho da espécie parecia natural e inexorável, motivou a gafe. Já Michel Temer, o cidadão, pode até ser desculpado mas associou-se em sua fala a um grave anacronismo que prevalece na sociedade brasileira.

Submissão por proteção

A sociedade brasileira é majoritariamente preconceituosa, mesmo que não o admita e quando o faça procure (canhestramente) redimir-se.

É machista, para ficar no caso em tela, quando reproduz no lar, escola e demais espaço de convívio a noção de que o macho protegerá a fêmea e ela retribuirá com grata submissão. Faz o mesmo quando preconiza que o homem ‘dê liberdade’ à mulher – quem dá pode tirar, pois não?

Mulheres coniventes

Acrescente-se que a reprodução do machismo tem decisiva contribuição das mulheres, de esposas que se orgulham em renunciar à realização profissional para favorecer a carreira dos maridos, de mães que incutem em seus machinhos a primazia masculina: ‘Coma bem para ser forte como seu pai’, ‘Boneca é brinquedo de menina’ ‘Cuide de sua irmãzinha’, ‘Homem não chora’ e mais pieguices.

Machismo = racismo

A propósito, não há frase mais infeliz que a supostamente valorizadora da companheira de um figurão: ‘Por traz de um grande homem há sempre uma grande mulher’.

É o equivalente machista daquele racismo supostamente ameno (seria cômico se não fosse trágico): ‘preto de alma branca’.

Machismo, racismo… tudo se iguala na estultice e ignomínia.

Lula machista,…

Não pairem dúvidas: a gafe do presidente Temer, a derrapada machista do cidadão Michel têm nada a ver com ‘nós contra eles’, Pt progressista versus adversários reacionários, muito menos esquerda contra direita.

Lula não faria melhor, não o fez nem com sua mulher: na longa trajetória sindical e política e nos oito anos de Planalto relegou Mariza Letícia a condição subalterna, submissa.

Só ao pé do caixão atribuiu-lhe algum protagonismo e o fez enaltecendo uma qualidade doméstica, ao revelar que ela costurara com as próprias mãos a primeira bandeira do Pt. Precisa dizer mais?

…Dilma omissa

Tampouco Dilma faria melhor. Primeira mulher-presidente em 127 anos de República, fugiu como o diabo da cruz dos debates que interessam à condição feminina.

Nas duas campanhas eleitorais de que participou temas como aborto, proteção da mulher ante cônjuges truculentos, casamento gay foram liminarmente recusados por seus marqueteiros.

Elite apavorada

Basta a cada dia a própria aflição – assim pensarão os estrategistas do Planalto e os aflitos congressistas ameaçados pelas delações da Odebrecht. Questões de gênero, manifestações feministas haverão de esperar o próximo 8 de março.

Por enquanto o governo, sua base parlamentar e a oposição afligem-se é com os próprios pescoços, sob risco da forca armada no Stf e na Justiça Federal em Curitiba.

A elite política brasileira está intimidada, apavorada, sobretudo confusa.

Embaralhou geral

Confusão pra ninguém botar defeito. A crise política persiste mesmo num quadro de promissora, malgrado lenta recuperação econômica.

O falido presidencialismo de coalisão deu lugar, nestes tempos de Temer, a um semiparlamentarismo pouco funcional que só opera mediante barganhas cada vez mais caras. Tudo à sombra da Lava a Jato, benéfica faxina ética – esta, sim, efetiva e persistente, diversa da que Dilma até tentou em 2011 mas arrependeu-se (ou ‘foi arrependida’…).

Ladeira abaixo

Ninguém sabe quem vai sobreviver à ‘delação do fim do mundo’. Nem mesmo o presidente da República, que provavelmente não será alcançado porém vê a imagem despencar ladeira abaixo, enquanto perde um a um os mais próximos colaboradores e tem crescentes dificuldades de substituí-los.

Esculhambação

A ver no que dá. E se a esculhambação generaliza-se, prefiro voltar às conjeturas de nossos carnavais, aliás esculhambados a cada ano por seus promotores – à frente a Liga das Escolas de Samba – e pelos governos.

Nesse último carnaval o prefeito do Rio, cidade que concentra seus mais prestigiados eventos e recebe o maior número de turistas, simplesmente sumiu do mapa. Terá aproveitado o ensejo para imerecidas férias em local aprazível, escudado pelos fiéis de sua igreja, levados a crer que carnaval é coisa do demo.

Bem feito!

Lamento o constrangimento dos cariocas com o absenteísmo de seu prefeito, mas é inevitável o repto: quem mandou eleger um neopentecostal fundamentalista?

 

Balançar, bagunçar

O melhor do carnaval, insisto, é a folia espontânea, que deveria resgatar-se inclusive nos desfiles das escolas que já foram de samba.

Invoco em favor da esculhambação – agora no bom sentido – um belo samba, parceria do mineiro João Bosco com o carioquíssimo Aldir Blanc (natural da Vila Isabel – precisa mais?). Chama-se Plataforma, foi lançado por Elis Regina há coisa de vinte anos.

Aldir, irrepreensível letrista, é peremptório ao cantar “que a gente não precisa/que organizem nosso carnaval” e declarar-se “por um bloco/que derrube este coreto,/por passistas à vontade/que não dancem minueto./Por um bloco/ […] que balance e abagunce/o desfile e o julgamento,/ […] que sacuda e arrebente/o cordão de isolamento”.

Falam Bete…

Fico feliz ao ver a mesma tese respaldada recentemente por personalidades ilustres do samba. Leio Bete Carvalho, de quem admiro – além da bela carreira – o papo direto e reto, sem frescuras (Folha de S. Paulo, 05.03):

“Hoje o samba está mais fraco, a forma de cantar mudou […]. Samba tem filosofia, poesia, não tem esses floreios, essa coisa americanizada. Samba é papo reto.”

…e Paulinho

Paulo César Farias, aliás Paulinho da Viola, é músico, compositor – sambista – e também um pensador da música e cultura brasileira.

Mesmo contente com a vitória de sua Portela ele está nada satisfeito com os rumos do samba e constata que “só não acabou porque o povo não deixou” (Fsp, 05.03).

Lamenta-lhe o desvirtuamento e compara as escolas do passado com as atuais:

“Cada bateria tinha um som diferente […]. Hoje, acelerou, pensava-se que seria mais vibrante mas tem que ter um limite.”

Paulinho sabe das coisas e mostra um detalhe técnico que explica a transformação do samba em marcha:

“Repare no tamborim, ele não faz mais a síncope.”

 

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