Marco Antônio Pontes | Terremoto, tsunami e um feliz contraponto

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes – marcoantoniodp@terra.com.br


Terremoto político

Foi terremoto de altíssimo grau na escala que mede os sismos políticos brasileiros. Sacode com igual intensidade Executivo e Legislativo federais e a cúpula do Judiciário, à qual compete avaliar os estragos e propor reparos, enleia-se na indigência de meios, na habitual morosidade, retarda projetos de reconstrução e arrisca-se a análogos abalos.

As reverberações na opinião pública desencadeiam tremores secundários de enorme potencial destrutivo.

Todo mundo lá

Ainda não é oficial mas os primeiros vazamentos – alguém acreditava no sigilo? – indicam que a ‘delação do fim do mundo’, a dos dirigentes da Odebrecht, fará (já faz) um tremendo estrago no ambiente político.

São seis ministros, outros tantos governadores, dezenas dos mais prestigiados parlamentares na mira da Procuradoria Geral da República, que pede ao Supremo Tribunal Federal autorização para investigar indícios de crimes que teriam cometido.

Ao todo 83 autoridades com foro privilegiado colocam-se sob suspeição, afora 211 casos remetidos a instâncias inferiores da Justiça – caso dos governadores e de políticos que não desfrutam ou perderam aquele privilégio, como os ex-presidentes Lula e Dilma.

The big one

Os estadunidenses da Califórnia e outros estados da costa do Pacífico, especialmente sujeita a fenômenos sísmicos (um deles praticamente destruiu San Francisco no início do século xx), temem a ocorrência de um enorme e definitivo terremoto, que os profetas da catástrofe garantem que virá e até batizaram: The big one.

Transposto para a política brasileira de 2017, o medo de hecatombe similar nem precisa de profetas para anunciar-se: os fortíssimos tremores registrados na semana que ora finda prenunciam um gigantesco maremoto que, este sim, arrasará reputações, abalará alicerces partidários e afogará pretensões políticas.

Intervalo ilusório

Não é pra já. A enervante espera que nos impõe a Justiça dará aos ameaçados um intervalo para que se iludam ou tentem reagir.

É como nos tsunamis que acompanham os grandes sismos, foi visto nas catástrofes que atingiram nações do oceano Índico em 2004 e o Japão em 2011: antes de desencadearem-se há um tempo de calmaria, o mar recua só para depois retornar furioso, ondas altíssimas a avançar além da orla e tudo destruir.

Desorientação geral

Estamos justo no intervalo entre terremoto e tsunami. Os congressistas, ministros, governadores e demais ameaçados, os que sabem muito bem o que fizeram, julgavam-se imunes e subitamente se constataram vulneráveis, desorientam-se agora em praia desconhecida e afinal percebem a onda avassaladora que se aproxima.

Em desespero buscam refúgios, projetam diques de contenção – tudo pra nada. Não têm onde se esconder, no máximo erguerão barreiras que serão derrubadas pelo poder maior da opinião pública.

Marco Maciel

Foi neste momento conturbado que na Câmara federal emergiu iniciativa capaz exorcismar tantos desvarios e oferecer um feliz contraponto ao tenebroso ambiente político – tivesse a imprensa o tirocínio de destacá-la e as assessorias de comunicação do Congresso encampassem-na, como deveriam.

Mediante moção do deputado pernambucano Augusto Coutinho, um grupo de amigos, correligionários e admiradores de Marco Maciel comemorou seus cinquenta anos de atividade política em sessão solene da Câmara.

É porque é

            – Foi o ser humano menos imperfeito que conheci – disse dele o amigo Gustavo Krause.

A frase é perfeita, prescinde de explicação. Só a comento para destacar-lhe também a coerência com a simplicidade, a naturalidade com que Marco Antônio Maciel cultiva a ética, a moral cristã e confirma-o cotidianamente. Ele é assim – pessoal, intelectual e politicamente honesto – simplesmente porque não sabe ser de outra forma. É porque é.

Atuação fundamental

Ao presenciar as homenagens com que deputados, senadores, o ex-presidente José Sarney e outras personalidades comemoraram o cinquentenário político de Maciel, lembrei-me de momento fundamental de sua trajetória, ponto de inflexão em que reafirmou o posicionamento democrático e com notável visão estratégica deflagrou a dissidência do então partido do governo, o Pds, para viabilizar a eleição de Tancredo Neves e o fim do autoritarismo.

O próprio Tancredo reconheceu-o (interpreto de memória): “Sem Marco Maciel a transição teria que esperar muito mais tempo.”

Redenção pela música

Comoveu-me a história de Davi, jovem de 15 anos que vive numa favela do Rio e criou uma ong denominada Ação Social pela Música (soube dela pelo Estúdio i, GloboNews, 16.03), entidade recruta crianças e jovens em situação de risco e abre-lhes oportunidades de estudar música.

Davi fundou, também, uma camerata, integrada (pelo menos na apresentação para a tv) por dois violinos, duas violas, dois violoncelos, flauta, o contrabaixo de Davi e na percussão um tarol e uma caixa alta, esta a cargo do pai do baixista, único não tão jovem do grupo, que aliás é mestre de bateria de escola de samba.

Emoção

Alguns dos alunos da ong já deram um passo além e fazem parte da Orquestra Sinfônica Jovem do Rio de Janeiro, empreitada do maestro David Machado vitoriosa desde 1982.

Minha emoção chegou ao máximo na apresentação da camerata que encerrou a reportagem do Estúdio i, uma bela interpretação da Aquarela do Brasil (Ary Barroso), seguida de Feira de Mangaio (Sivuca e Glorinha Gadelha).

 

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