Marco Antônio Pontes | Desencanto, equívocos e um desafio ao leitores

Rodin Thinker Statue

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes – marcoantoniodp@terra.com.br


Desencanto

Paulo Francis costumava dizer que o ser humano é inviável. Emulava (talvez citasse, não sei) algum filósofo do pessimismo: Schopenhauer, Nietsche, os remotos pré-socráticos… e a mais recente Hanna Arendt, desencantada autora de A condição humana, A promessa da política e sobretudo, no caso, de Eichmann em Jerusalém.

Ou não revelaria? desilusão com a natureza humana sua constatação de que o burocrata nazista, principal executor da ‘solução final’ que exterminou milhões de judeus não era um monstro nem gênio do mal, apenas – como tantos em seu tempo, e antes e depois dele – um aplicado cumpridor das ordens que recebia, sem questionar-lhes a moralidade?

Equívocos em série

Não nos houvesse feito a desfeita de morrer Francis reafirmaria hoje sua tese, por exemplo diante do acúmulo de erros que acompanhou e sucedeu a operação ‘Carne Fraca’ da Polícia Federal e Ministério Público.

Iniciada com meritória intenção – denunciar ligações espúrias entre iniciativa privada e estado, mais especificamente de grandes e médias empresas do setor de alimentos com o aparato estatal encarregado de fiscalizá-las –, a operação incorreu em equívocos que, se não lhe comprometem o escopo, desvirtuam os resultados.

Do ridículo…

– Podiam se ater à questão da corrupção e pronto. Mas têm que aparecer…

Roldão Simas Filho enviou-me essa lapidar conclusão de um interlocutor, a explicar por que se equivocou a divulgação da recente missão da Pf e Mpf.

A começar por rotulá-la “a maior de todas” e não esclarecer que se referia ao número de agentes mobilizados, não aos possíveis crimes, valores envolvidos e repercussões na atividade econômica. Além de ignorar noções primárias do setor, no que resvalou no ridículo.

…ao trágico

Tem nada de risível, porém, o desastre econômico provocado pela informação equivocada.

A imprensa tratou competentemente a questão na semana que ora finda mas ela própria errou na partida, quando se associou acriticamente ao espetacular anúncio da operação e assim potencializou-lhe os equívocos e consequências.

Crime, sim

Esclareça-se: na tal operação houve erro de forma, não de conteúdo. A divulgação desastrada não elide os crimes efetivamente denunciados: executivos de grandes empresas de um setor fortemente oligopolizado – com as bênçãos de sucessivos governos e ajuda bilionária do Bndes – corromperam funcionários públicos para obter vantagens indevidas, à custa dos contribuintes e ameaça à saúde dos consumidores.

Desumanidades…

E aqui retorno ao desabafo de Paulo Francis: o episódio é eloquente em desmerecer a humanidade.

Aconteceu que bem formados e informados dirigentes de gigantescas corporações do setor mais dinâmico de uma das dez maiores economias do mundo, ademais impulsionadas por benefícios fiscais destinados a erigir ‘campeões nacionais’ (brasileiros) entre as multinacionais do segmento, permitiram-se práticas mesquinhas como o suborno de fiscais e colocaram em dúvida a higidez de seu produto. E seus parceiros no crime, agentes governamentais, ao prestarem-se ao engodo impuseram riscos à saúde pública – inclusive a suas próprias comunidades e familiares.

…no mundo e Brasil

Estivesse entre nós, Francis talvez se valesse da formação marxista e reformulasse o conceito para afirmar que, sob a égide dos diversos sistemas de organização econômica que culminaram no capitalismo, é inviável a humanidade.

Em favor desta hipótese, pode-se até passar ao largo da longa história de submissão e espoliação dos povos colonizados de África, Ásia e América Latina: quando não se deu manu militari, fez-se via cooptação e corrupção de seus líderes.

Basta um olhar sobre o Brasil deste século, palco de notórios episódios de malversação dos bens públicos mediante conluio dos poderes econômico e político – estão aí mensalão e petrolão a escancarar os feitos da humana perversidade.

‘Toma lá, dá cá’

Registre-se, ademais, que as falcatruas reveladas pela operação ‘Carne Fraca’ descendem em linha direta do obsoleto presidencialismo de coalisão e seu informal sucedâneo, o semiparlamentarismo vigente.

Esta é a ‘herança maldita’ e não foi Lula, via Dilma, quem a impôs a Temer, muito menos Fernando Henrique legou-a a Lula. Ela materializa-se em algo prosaico e mesquinho, o ‘toma-lá-dá-cá’ que há décadas preside as relações do governo com sua base parlamentar e coloca apadrinhados em postos-chave, para satisfação de interesses estranhos ao serviço do povo.

Estado benfeitor

À inadequação política equivalem ultrapassadas estratégias econômicas, sob o reincidente capitalismo de estado presente nas ditaduras do século passado – na era Vargas, 1937–1945 e nos 21 anos do ciclo militar iniciado em 1964. Tal peculiar capitalismo, já então com falsa aparência progressista, também presidiu o populismo sob Lula e Dilma.

Uma das características do modelo é tornar a iniciativa privada umbilicalmente dependente das benesses do estado, ademais de ensejar promiscuidade e corrupção – eis aí a ‘Carne Fraca’ a outra vez exibir o fenômeno.

Convite aos leitores

Voltarei ao assunto, e à boutade de Francis, a imaginar o que diria destes nossos tempos o brilhante intelectual, arguto observador das contradições do ser humano.

Quem sabe? derivasse para a inviabilidade não exatamente do indivíduo mas de sua inserção na sociedade, das organizações engendradas para administrá-la, que ao longo da história – sob escravismo, feudalismo, mercantilismo, capitalismo – invariavelmente produziram e produzem desigualdade, injustiça, construção de fortunas à custa da miséria, de nações poderosas pela exploração das demais.

Temas a pensar, no que conto com a colaboração dos leitores – mensagens para o e-mail lá em cima.

Desculpem-me, os leitores…

…que recentemente aportaram contribuições preciosas a esta coluna, as quais tardo em comentar. Prometo redimir-me, dialogar nas próximas edições com as observações de Renato Vivacqua, Valéria de Velasco, Cláudio Machado, Virgínia Helena Viana Rocha…

 


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