A melhor e a pior idade

Não faz muito tempo, envelhecer parecia uma coisa medonha e irreversível. Não que tenhamos conseguido para o tempo, mas seguramente conseguimos ressignificá-lo. O tempo seguia os passos de uma narrativa teleológica, na qual início, meio e fim, se concatenavam com as nossas subjetividades e representações da realidade. O mercado demorou muito para perceber que os mais velhos sempre foram consumidores mais sofisticados que os mais jovens. Talvez pelo Brasil ainda ser um país de jovens, os mais velhos eram descartados com uma facilidade vergonhosa. Até a década de 90 havia um temor generalizado em perder o emprego após os quarenta anos de idade. A possibilidade de recolocação no mercado de trabalho após esta idade era mínima. Com os novos horizontes contemporâneos, esse processo parece se inverter a passos largos. Resta saber o impacto geracional dessa mudança.

No campo sociológico os impactos foram contundentes. Pois, na medida em que os “velhos” não abrem espaços para os “novos”, a processualidade emancipatória dos jovens sofreu um revés cronológico significativo. Isso, sem falar, nos aspectos afetivos e simbólicos relacionados a esta questão. Estamos assistindo uma geração que se emancipa cronologicamente, mas que não possui a autonomia experiencial necessária para assumir a gestão da própria vida. Paradoxalmente, ao passo que os jovens estão cada vez mais infantilizados, os mais velhos estão literalmente “bombando”. Diante dessa circunstância, parece não haver outra alternativa a não ser prolongar o estado de imaturidade e dependência dos mais jovens. Enquanto os jovens atravessam a faixa dos dezoito anos ainda umbilicalmente vinculados aos seus vídeo games, seus pais estão cada vez mais joviais, “sarados”, tomando novos rumos profissionais, afetivos e consumindo como nunca.

Segundo Freud, parte do fortalecimento da identidade do filho estaria diretamente relacionado ao definhamento do pai. Ou seja, numa lógica proporcionalmente inversa, o filho ocuparia o lugar do pai, ficaria com a sua herança e o seu legado social. Todavia, como essa dinâmica não se dá como antes, alguns autores defendem que à adolescência estaria chegando aos vinte e nove anos de idade no Brasil, e em alguns países europeus aos quarenta anos. Para à psicanálise, enquanto existir libido, existirá vontade de viver. A velhice não é apenas um condicionamento temporal, mas essencialmente cultural. Quando a média de vida do brasileiro era de cinquenta anos, aos quarenta o sujeito incorporava todas as representações desse momento de declínio. Começava um processo acelerado de embranquecimento dos cabelos, de encurvamento do corpo, os sulcos nos rosto se acentuavam, e paralelo a isso, uma resignação intensa pavimentava o caminho do fim.

O mercado ao perceber que seria mais lucrativo estimular os “velhos” ao consumo, do que o longo processo de preparação, inserção e emancipação dos jovens, redefiniu a cronologia da decadência libidinal da sociedade. Com a introdução do “viagra” e da reposição hormonal, associado a uma vida econômica mais estável, construíram um consumidor excepcional. Sem filhos para criar, sem as mesmas neuroses de autoafirmação características da juventude, com dinheiro, longevidade e muito tempo livre, gozar se tornou uma obrigação. Uma ilustração desse processo é o aumento dos índices de suicídio entre os mais jovens. Parece que nessa nova conformação social da temporalidade humana, os mais jovens parecem estar numa fase mais precarizada do que os mais velhos.

A perda mais significativa desse embate geracional parece se concentrar na ressignificação dos valores afetivos entre as gerações. Se antes a audácia do jovem associada a sabedoria do “velho” produzia uma síntese virtuosa nas relações humanas, o ensimesmamento atual provocou um hiato entre esses dois mundos. Enquanto os jovens prescindem da sabedoria dos mais velhos porque recorrem ao Google, os mais velhos também se desconectam dos jovens recorrendo ao mesmo Google. Enfim, estamos adentrando em um universo relacional no qual o legado entre as gerações serão mercadorias comercializadas pela internet.


Paulo Passos é graduado em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política, doutor em Ciências da Religião e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.


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