Marco Antônio Pontes | Lula x Lula, Janot x Gilmar e os candidatos-sabonetes

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes – marcoantoniodp@terra.com.br


Lula x Lula

Não foi disputa entre o ex-presidente e o juiz federal, como pretendia o Pt, o interrogatório de Lula em Curitiba: por definição Sérgio Moro julga, não é julgado e explicitamente já recusara o papel de litigante ao desaconselhar manifestações de apoio.

Malgrado o elejam inimigo número 1, o juiz não está em causa. Lula, sim, e tem de haver-se com algo pior que as acusações dos promotores: a comparação consigo mesmo, do metalúrgico que despertou esperanças em plena ditadura com o atual político enrolado nos próprios erros, réu em cinco ações criminais e alvo de denúncias que podem gerar outras tantas.

Lula x Lula (II)

A politização que o Pt tenta apor às vicissitudes do chefe, se não oculta o fato inconteste de que ele é processado por crimes ‘comuns’ – corrupção, lavagem de dinheiro, organização para delinquir, tráfico de influência… –, gera um efeito colateral: impõe ao bem sucedido chefe populista o confronto com seu passado.

Lula x Lula (III)

O confronto é desastroso para o Lula de hoje. Opõe o acusado inseguro no tribunal de Moro, a dedilhar em tiques nervosos as páginas de documentos que portava sem consultar, ao presidente que há poucos anos recebia elogios de personalidades internacionais e ao político que conciliava com o poder econômico sem comprometer a aura de defensor dos pobres.

Lula x Lula (IV)

A estratégia da cúpula petista e seus advogados – politizar o processo e simular batalha do líder popular contra tribunal a serviço das elites que o perseguem – afinal não deu certo. Nem deveria, porque mentirosa e não funcionou quando Lula quis executá-la.

Quase todo o tempo ele vergou-se ao peso das acusações, tentou sacadas de humor prontamente rechaçadas pelo juiz e ao atacar seus alvos prediletos, os procuradores da força-tarefa, não foi eficaz.

Lula x Lula (V)

Concentro-me em aspectos laterais ao evento porque mal se inicia a avaliação de seu conteúdo e possíveis impactos sobre as ações penais. Os analistas apenas entreveem os resultados, todos desastrosos para Lula e demais acusados. Ainda mais se o Pt não para de receber más notícias Pt, como nas delações premiadas de João Santana e Mônica Moura.

Supremo exagero

Gilmar Mendes exagerou na atuação política, em seguidas e polêmicas declarações – parece candidato em campanha.

Então o procurador geral fez seu lance, que muitos consideraram gol contra: quer inabilitar o ministro em julgamentos que envolvam Eike Batista porque sua mulher, a advogada Guiomar Mendes, é sócia de escritório que representa o empresário. Mas a filha de Janot advoga para empresas enroladas na Lava a Jato.

Mais rigor

Ambos, Gilmar e Janot, garantem não haver conflito se as respectivas esposa e filha não participam dos casos em que atuam. Os leigos, no entanto, permitimo-nos indagar: não seria melhor que integrantes da cúpula da Justiça liminarmente se ausentassem desses processos, numa interpretação mais textual e rigorosa da lei?

Raia impedida

Há outra interpretação da atitude belicosa de Janot. Ele teria identificado em Gilmar o mais acirrado opositor do Ministério Público, no âmbito da operação Lava a Jato, daí o contra-ataque.

A crer-se nesta versão, a estratégia deu certo: colocou na defensiva o adversário que nadava de braçada em raia livre e agora, constrangido, precisa explicar-se.

Problema intocado

A enésima tentativa de reforma política irá a lugar nenhum. No máximo indicará um começo, se de fato reduzir o número de partidos e der fim às esdrúxulas coligações em eleições proporcionais, coibindo o vergonhoso aluguel de legendas.

Grave é que ninguém encare o problema central das eleições, os astronômicos custos das campanhas.

Liberal além da conta

A legislação eleitoral abrigada na Constituição de 1988 é marcadamente liberal, produto de um tempo em que se reconstruíam as instituições e todos as queriam diferentes, opostas às da ditadura. E como soe acontecer em situações que tais a reação extrapolou, liberou geral.

Conteúdo relegado

Igualmente equivocado é o balizamento das campanhas eleitorais.

Vedou-se propaganda direta dos partidos e candidatos em tvs e rádio-emissoras e criaram-se em seu lugar inserções publicitárias e programas eleitorais ditos gratuitos – na verdade pagos com dinheiro público – sem cuidar de seu conteúdo.

E assim eles transformaram-se em peças cada vez mais sofisticadas e caras, com toda a magia que podem conceber e produzir as empresas de marketing e publicidade.

Candidatos-sabonetes

Nada contra a sofisticação dos marqueteiros e publicitários. O problema é que aportaram às campanhas conceitos da propaganda comercial e corporativa, essencialmente diversos dos que informam (deveriam informar) a política.

À falta de normas que ensejem controle da Justiça Eleitoral, partidos e candidatos são anunciados como quem vende sabonetes: apregoam-se-lhes as qualidades (reais ou fictícias, mais isso que aquilo) sem revelar, muito menos discutir suas ideias, propostas, visões de mundo.

Polêmicas fora

Assim as campanhas eleitorais deixam de lado os temas polêmicos.

Nelas não se discutem conteúdos educativos, por exemplo, para não ferir suscetibilidades de seitas fundamentalistas, de um lado, e de outro desagradar poderosas corporações que se apoderaram da opinião dos educadores. Direitos e interesses de minorias, como os das comunidades lgbtt, esbarram na oposição de segmentos religiosos que controlam ou influenciam milhões de votos. Assuntos relativos à condição feminina, como violência doméstica e interrupção voluntária da gravidez, por análogas razões são vetados.

O tom é o marketing

A propaganda eleitoral centra-se no consensual. Candidatos e partidos propõem apenas generalidades, o que todos podem aceitar: prioridade para educação, saúde, segurança, mobilidade urbana, sem dizer como pretendem efetivá-la.

E para diferençar cada qual dos demais os marqueteiros – que efetivamente dão o tom, até dirigem as campanhas – criam discursos que privilegiam a emoção, inventam marcas e fetiches tendentes a obscurecer a razão e induzir o voto – azar se inconsciente.

Sem mais do mesmo

A finalizar, por enquanto, o assunto: o triste espetáculo protagonizado por expressiva parcela dos políticos e seus partidos há de ter muito a ver com a maneira por que são eleitos. Ninguém é escolhido por ideias e propostas, umas e outras escondidas pelas conveniências do efêmero momento eleitoral.

Se quisermos mudar, ‘reformar’ a política convirá não insistir em práticas que não dão certo. A começar pelas campanhas eleitorais.

Emas e pardais

Li em Veja (03.05), justo na primeira frase de uma reportagem (no mais, excelente): “Até as emas que habitam os gramados do Palácio do Planalto…”.

Até os pombos que moram no ‘pegador de roupas’ da Praça dos Três Poderes sabem que as emas habitam os jardins do Palácio da Alvorada; e que o do Planalto não tem gramados em torno.

 

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