Marco Antônio Pontes | ‘Coincidências’ na barbárie e a imprensa descompensada

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes – marcoantoniodp@terra.com.br


Barbárie em Brasília

            “Nós derrubamos a Dilma sem quebrar uma vidraça” – disse um aturdido Fernando Gabeira na Conversa com o Bial (GloboNews, madrugada de quinta-feira, 25.05).

Inevitáveis, o espanto e a comparação: na tarde anterior, em manifestação contra o governo, reformas e sei lá mais o quê, uma quantidade inédita de vândalos apossou-se das vias centrais de Brasília, quis tomar de assalto o Congresso, o Planalto, o STF, não conseguiu e literalmente incendiou a Esplanada onde se previra um evento pacífico, devastou oito edifícios e pôs fogo em dois deles, além de pichar símbolos da escala monumental da capital e da arquitetura brasileira – a Catedral e o Museu da República.

Ofensa à civilização

Não houve só um ataque ao poder e à polis que o acolhe e personifica; também invadiram a urbs, o esplêndido lugar de viver dos cidadãos brasilienses. Desde a manhã da infausta quarta-feira os manifestantes interromperam o tráfego no Eixo Monumental e impuseram caos ao trânsito no coração da cidade.

E nem foi isso o pior: a selvageria agrediu-nos ao conspurcar nossos amplos espaços e gramados feitos para o convívio civilizado, não para exibição dos mais torpes instintos humanos (humanos?!).

Coincidência

A comparação de Gabeira, ilustrada por imagens que povoaram os telejornais, as redes ditas sociais e sites na internet, enseja reflexões sobre uma estranha coincidência – se de coincidência se trata: os movimentos pelo impeachment de Dilma Rousseff mobilizaram em Brasília vinte vezes mais manifestantes que os 45 mil (avaliação da Pm) que aqui protestaram no fatídico 24 de maio.

E como lembrou o jornalista, neles nada se quebrou afora o governo Dilma, seu partido e a reputação do ‘chefe’.

Mais coincidências

Igualmente, naquelas marchas contra Dilma, Lula e sua turma, milhões de indignados cidadãos recusaram a violência quando inundaram as ruas de todas as capitais e outras cidades grandes ou médias.

Ao contrário, qualquer grupelho mobilizado pelas corporações sindicais ainda aparelhadas pelo petismo para gritar contra as reformas e o atual governo tem ao lado seus blackblocs.

E só conseguem mover-se, corporações e baderneiros, com o dinheiro tomado dos trabalhadores via imposto sindical e outras verbas públicas com que ainda contam.

Boca na botija

Menos mal se os marginais que atacaram Brasília foram apanhados com a boca na botija.

Terminado o assalto, foram vistos a reagruparem-se no estacionamento do Estádio, de volta aos estimados 700 ônibus que os trouxeram junto com os demais.

Impossível deixar de supor: os organizadores do protesto tinham tropa de choque adrede preparada. Até porque, entre os poucos que a polícia conseguiu prender, todos vieram de fora.

Erramos

Foi lamentável o desempenho da imprensa a partir das 19h30 da quarta-feira, 17 de maio, quando o vazamento da colaboração premiada de donos e outros executivos do grupo Friboi caiu como um raio sobre dezenas de políticos, a começar por Michel Temer, Aécio Neves, Guido Mantega, Lula com seu ex-poste… – ‘tá bem, ex-‘presidenta’, concedo: ex-‘posta’; mas não lhe parece ruim?, a sugerir ‘exposta’ a sei lá o quê…

Não foi bem assim;…

A revelação do site d’O Globo gerou tremendo impacto. Ato contínuo, repórteres e analistas deram por findo o governo Temer: o presidente teria sido apanhado ‘com batom na cueca’, se me permitem a expressão chula porém apropriada ao conteúdo em pauta.

Coisa de 24 horas depois, ouvida a gravação, achou-se que talvez não fosse assim: uma frase do presidente – “Tem que manter isso, viu?” – não significaria, como noticiado n’O Globo’, endosso à compra do silêncio de Eduardo Cunha, mas à afirmação do delator de que estaria “tudo bem” entre ele e o ex-deputado.

…terá sido pior?

Então se engatilhou interpretação oposta: “a montanha pariu um rato”, como dito no Palácio do Planalto, quem sabe? pelo próprio presidente. Tudo não passaria de armadilha grosseira que o governo prontamente desmontaria.

Também fruto da pressa, tal entendimento não sobreviveria à madrugada de sexta-feira. Conhecidas mais gravações, já então com imagens, diria, pornográficas, potencializou-se o drama: mesmo a carecer de mais indícios que os oferecidos pela interessada delação de empresários pra lá de enrolados, o que foi mostrado é estarrecedor e produz fenômenos sísmicos de intensidade maior que causadores do impeachment de Dilma Rousseff.

Na pressa, o erro

Resta saber se o atual terremoto terá igual efeito. A resposta talvez seja dada nos próximos dias, porém não pretendo aqui especular de qual e como será.

O que proponho, sobretudo aos jornalistas que eventualmente me honrem com a leitura, é refletir sobre os equívocos que frequentemente cometemos ao decidir apressados que enfoque conferir à notícia que nos compete transmitir, contextualizar, analisar.

Objetividade difícil

Os jornalistas aprendemos desde cedo a ‘não brigar’ com a notícia; gostemos dela ou não, publicamo-la.

Mas complica-se a aplicação da norma se devemos, previamente, questionar o que é (ou não) notícia; exercitar a dúvida, inquirir da legitimidade da fonte, conferir a autenticidade da informação, conhecer outras versões, opiniões até conformar razoável conhecimento do que vamos transmitir.

O quê, obviamente, envolve alguma subjetividade, mais busquemos objetividade e isenção.

Sem pré-conceitos

Satisfeitos os pré-requisitos devemos reportar fielmente o que sabemos, evitar que nossas ideias e pré-conceitos contaminem a notícia.

Afinal não vivemos, os jornalistas, numa redoma protegida de influências, muito menos possuímos filtros mágicos que automaticamente identifiquem a verdade na informação em estado bruto, para que flua sem subjetivismos, interpretações conforme nossas próprias tendências e opiniões.

Proibido duvidar

Algo bem prosaico entra do rol dos subjetivismos que podem induzir jornalistas ao erro, em especial o da precipitação.

É que tendemos a evitar dúvidas, sobretudo ao relatar os fatos mais destacados ou polêmicos e redigir títulos ou ‘chamadas’ (resumos de notícia) na primeira página de jornais ou seus equivalentes nos noticiários de televisão ou rádio.

Por exemplo, não queremos dizer que “o presidente talvez haja avançado o sinal” – temos de ser afirmativos, mesmo a sacrificar a cautela.

Em grande medida foi a ‘proibição’ de duvidar que motivou as ridículas mudanças de enfoque ante a delação do Friboi.

 

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