Acre zera lista de espera por cirurgia de lábio leporino

Programa já realizou mais de 1,1 mil cirurgias, devolvendo o sorriso a pacientes e familiares (Foto: Júnior Aguiar)

Marcos Vinícius tem apenas oito anos, mas já é um velho conhecido da equipe multidisciplinar que atende no setor odontológico do Hospital das Clínicas.

A criança, assim como muitas que já passaram por lá, é acompanhada desde bebê devido a uma má formação nos lábios e céu da boca, chamada de fissura labiopalatal ou lábio leporino, uma abertura ocasionada pelo não fechamento da estrutura labial e que afeta nariz, lábio, cavidade oral, nasal e ouvido.

Cheguei aqui com um bebezinho no colo, com medo e dúvidas, mas encontrei uma verdadeira família neste local
Jovercina Ribeiro

Adotado aos seis meses de vida, o menino, de origem indígena, aguardava no corredor uma consulta com a dentista já para a colocação do aparelho ortodôntico.

Marcos Vinícius já passou por quatro cirurgias de correção, e agora entra na reta final do tratamento. A mãe, Jovercina Ribeiro, não conteve a emoção ao falar do acolhimento e tratamento do filho.

“O Marcos não nasceu de mim, mas Deus me mandou este anjinho para eu cuidar e amar. Quando vi sua deformidade pela primeira vez tive ainda mais amor por ele. Cheguei aqui com um bebezinho no colo, com medo e dúvidas, mas encontrei uma verdadeira família neste local. Sou grata por esse programa que trouxe de volta o sorriso de tantas famílias, a exemplo da minha”, diz emocionada, Jovercina.

Histórias como a do pequeno Marcos Vinícius são testemunhadas quase todos os dias no Centro de Especialidade Odontológica (CEO), onde pacientes labiopalatais são tratados no Acre, por meio do Programa Estadual de Reabilitação e Assistência ao Fissurado da Face (PRAFF), desenvolvido pelo governo do Estado, por meio da Secretaria de Saúde, com parceria da entidade internacional Smile Train, especializada em repassar recursos destinados ao auxilio de crianças portadoras de fissuras.

Estratégia do programa é atender as crianças com lábio leporino já nos primeiros meses de vida (Foto: Júnior Aguiar)

Sorriso ferido tem cura

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 650 crianças nasce com fissura labiopalatina no Brasil. As causas envolvem fatores genéticos e ambientais, que podem atuar isolados ou em associação.

A boa notícia é que essa má formação pode ser revertida. O lábio pode ser reparado ainda nos primeiros meses de vida. Já o céu da boca leva um pouco mais de tempo. As intervenções cirúrgicas dependem do desenvolvimento do bebê e são determinadas pela equipe técnica.

Temos algo muito positivo hoje na saúde do Estado, é uma orientação adequada que é feita nas maternidades quando nasce uma criança com fissura de lábio

Caroline Lucena, ortodontista

No Acre, graças ao Programa Estadual de Reabilitação e Assistência ao Fissurado da Face, que se consolidou há oito anos no Hospital das Clínicas, já não existe lista de espera por esse tipo de cirurgia. Sem demanda reprimida, os procedimentos ocorrem três dias seguidos de cada mês, beneficiando de oito a nove pacientes, sendo que muitos passam pela cirurgia pela segunda, terceira e quarta vez.

De acordo com a ortodontista Caroline Lucena, o ideal é que o tratamento ocorra já nos primeiros dias de vida.

“Temos algo muito positivo hoje na saúde do Estado, é uma orientação adequada que é feita nas maternidades quando nasce uma criança com fissura de lábio. Ela vai ser encaminhada, e aqui vamos fazer todo o acolhimento necessário, juntamente com uma equipe multidisciplinar. Essa é uma situação ideal, fazer esse acompanhamento ainda nos primeiros dias de vida, até para dar um suporte às famílias, acalmar as mães e falar sobre o tratamento”.

Resgatar a autoestima, devolver o sorriso e minimizar problemas com a fala e alimentação são alguns dos benefícios das cirurgias para correção de fissura craniofacial em crianças com lábios leporinos.

Os procedimentos estão a cargo do cirurgião plástico Lorenzo Sampaio, fundador do programa no Acre. Mais de 400 pessoas são cadastradas no Programa de Reabilitação e Assistência ao Fissurado da Face.

Relação de confiança

Nos dias 31 de maio, 1 e 2 de junho, ocorreu mais um ciclo de cirurgias de correção de lábio leporino no Hospital das Clínicas. No corredor, em frente ao centro cirúrgico, a jovem mãe de 19 anos, Angélica de Melo, aguardava o término da cirurgia de seu filho, um bebê de apenas quatro meses, que nasceu com fenda labial.

“O coração fica apertado em pensar que um bebezinho assim tão pequeno está enfrentado uma cirurgia. Fomos muito abençoados em saber que a cirurgia iria ser feita logo, não precisaríamos esperar tanto. Não é só a aparência dele que vai mudar, porque ele já é lindo do jeito que é. Sua alimentação vai fica melhor, agora a amamentação vai ser mais fácil”, diz a mãe.

A cirurgia do pequeno Gabriel foi um sucesso, e a criança teve alta um dia depois. O procedimento durou cerca de três horas.

Não é só a aparência dele que vai mudar, porque ele já é lindo do jeito que é. Sua alimentação vai fica melhor, agora a amamentação vai ser mais fácil

Angélica de Melo

Menos de um mês depois da cirurgia, fomos visitar Gabriel e sua família. Morador do quilômetro 15 no ramal do 47, na BR-317 – sentido Assis Brasil – encontramos uma criança sorridente e pais agradecidos pelo rápido atendimento e a boa recuperação do pequeno. “O atendimento foi bom demais. Nunca imaginei que seria tão rápido. Eu esperava que essa cirurgia demorasse mais de um ano. Quando me ligaram quase não acreditei. Lá no Hospital das Clínicas fomos muito bem tratados e a recuperação do Gabriel tem sido a melhor possível”, destaca Angélica.

Nos braços da mãe, pequeno Gabriel de 5 meses de idade, se recupera da cirurgia de correção de lábio leporino (Foto: Leônidas Badaró)

De 2012 até maio de 2017 já foram realizados mais de 1,1 mil procedimentos cirúrgicos de correção de lábio leporino.

Mais informações sobre o Programa Estadual de Reabilitação e Assistência ao Fissurado da Face (PRAFF), que funciona no Hospital das Clínicas, pode entrar em contato direto no setor, pelo telefone (68) 3226-3387.

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