Marco Antônio Pontes | Em erros e brigas com a história a imprensa expõe seus defeitos

 

 

 

 

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes – marcoantoniodp@terra.com.br


 

É a história!, gente

Jornalistas que reportam e comentam nossa atual cena política precisam conhecer a história do Brasil, em especial a das décadas recentes cujos fatos e fenômenos influenciam quando não condicionam os de hoje.

Infelizmente muitos coleguinhas menosprezam essa ferramenta indispensável – a informação histórica – e cometem erros de avaliação, interpretação e até factuais.

Acontece nas melhores famílias.

Erro de fato

Cristiana Lobo pertence às ‘melhores famílias’ do jornalismo político, mercê de seu papel destacado nos noticiários e programas analíticos da Tv. É querida pelos colegas, aplaudida pelo público e ao merecido prestígio acrescenta simpatia no jeito suave e sorriso aberto mesmo às más notícias, nesta quadra nada sorridente da política brasileira.

Mas simpatia ou prestígio melhora em nada o erro factual, a comprometer a análise, em que incorreu ao comentar a desastrada tentativa de Michel Temer de disputar com o Dem – com Rodrigo Maia – o espólio da anunciada cisão do Psb.

Interpretação avessa

A comentarista contextualizava os partidos e personagens em disputa (GloboNews, manhã de terça-feira, 18.07). Ao referir-se aos Democratas afirmou que são herdeiros, ou algo análogo, da Arena e seu sucessor Pds (agremiações tuteladas pelo poder dos generais, num jogo que pretendia mascarar a ditadura).

Ignora ou esquece, a simpática jornalista, que o Pfl (Partido da Frente Liberal, primeiro nome do atual Democratas) foi justo o avesso do que supôs: nasceu para abrir um flanco nos esquemas parlamentares do autoritarismo e construir a dissidência que confrontou Paulo Maluf, o títere do ‘sistema’, no Colégio Eleitoral que escolheria sucessor do general Figueiredo em novembro de 1984.

Descuido

Cristiana saberá tudo isso, no mínimo tê-lo-á estudado na escola. Descuidou-se, porém, ao não aplicar a informação histórica ao trabalho cotidiano.

A história não é adereço da erudição de quem passeia sobre ideias; desmerece-se ao rechear belas capas de livros nunca lidos, só para valorizar a decoração; nem é reserva de motes para ilustrar conversas de bar. Ela é mestra e guia da vida, chave de compreensão do mundo:

“Quem não conhece a história está condenado a repeti-la” – a frase é de Edmund Burke, ‘Che’ Guevara gostava de citá-la.

Erros a granel

Se me detenho em criticar uma colega, não é a ela que em última instância endereço a crítica.

É que tais deslizes são recorrentes na imprensa, o fenômeno é coletivo e nas redações nada se faz para melhorar o nível de informação geral de repórteres, redatores, apresentadores, analistas. E a desinformação não se limita à história, dissemina-se em todos os ramos do conhecimento.

A geografia é solenemente malversada, dados estatísticos são tratados atabalhoadamente e não raro o entendimento do jornalista contradiz o que de fato revelam. Muitos colegas são inábeis até na aritmética comezinha, leem errado frações decimais: dia desses um repórter de tv ‘interpretou’ 0,3 como grandeza menor que 0,18…

Coitado do idioma!

Pior: o fundamento do trabalho jornalístico, o idioma, é maltratado impiedosamente.

A regência verbal foi abolida, não se distinguem objeto direto e indireto e ambos de complementos e adjuntos, aboliram-se as regras de colocação de pronomes, a concordância nominal ou verbal é letra morta – o emprego da voz passiva, sobretudo, parece armadilha de que poucos escapam.

Ignorância e preconceito

Os solecismos impressionam especialmente na tv.

Consta que apresentadores, repórteres, analistas são orientados a aproximar sua comunicação do falar popular. Seria menos mal, fosse só isso, mesmo sob risco de empobrecer a linguagem e realimentar a ignorância.

Porém o problema é mais grave, os comunicadores erram porque desconhecem a língua. E adotar um jeito popular de expressar-se não obriga falar errado – é até preconceituoso, este entendimento.

Briga com os fatos

De volta à briga com os fatos históricos, a notar como se vulgariza.

Na edição de quinta-feira, 20.07 o Correio Braziliense repetiu o equívoco de Cristiana Lobo e acrescentou outros ao abordar o mesmo assunto. Está na Memória que acompanhou reportagem extensa, aliás precisa em tudo o mais, e pretendia contar Uma história com altos e baixos, a dos Democratas:

[…] Com a chegada dos militares ao poder a Udn [União Democrática Nacional] se transformou em Aliança Renovadora Nacional (Arena) […]. Da Arena surgiu o Pfl. Os principais líderes históricos são Jorge Bornhausen, Antônio Carlos Magalhães e Marco Maciel. […]

Erros em série

Confundiu-se demais a história em parágrafo tão curto.

A Udn não se transformou em Arena, que de fato abrigou a maioria de seus quadros mas também, e em maior número, os de outros partidos conservadores ou nem tanto – Psd, Prp, Pr, Pl, Pdc, até o Ptb do deposto presidente João Goulart.

E o principal líder da Udn, Carlos Lacerda, não aderiu e pouco depois acabou cassado, ao aliar-se a Juscelino e Jango (adrede proscritos pela ditadura) numa ‘Frente Ampla’ pela democracia.

Meia verdade

Dizer que “da Arena surgiu o Pfl” é meia-verdade – e “meia-verdade é mentira inteira”, conforme o provérbio iídiche.

A Frente Liberal emergiu para opor-se à cúpula do Pds, o partido do poder e ao próprio poder dos generais.

De fato Maciel (formulador e principal executor da estratégia), Bornhausen e outros não citados – Aureliano Chaves, Carlos Chiarelli, José Agripino, João Mendonça, Wolney Siqueira… – partiram à frente, arriscaram mais que os mandatos e carreiras ao enfrentar a ditadura ainda poderosa, vingativa em seus estertores.

Antônio Carlos Magalhães, porém, aderiu mais tarde, conferida a ruína do autoritarismo.

Dissenso providencial

Reitero, ante a anunciada ampliação e repaginação do Dem (talvez com retorno ao nome e conceito de Frente Liberal), sua importância na redemocratização de 1984–85.

A dissidência imposta aos generais pela iniciativa de Marco Maciel, então senador do Pds, arregimentou apoios no interior do próprio regime, inclusive o vice-presidente Aureliano Chaves e o senador José Sarney, que presidia o partido do governo.

Impulso decisivo

Assim os dissidentes credenciaram-se a negociar com a oposição ao regime e acrescentaram-lhe o impulso decisivo, que reverteu a tendência de prolongamento do autoritarismo.

Com o Pmdb de Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Tales Ramalho e instituições sociais que o apoiavam – o Pt não quis participar – construiu-se uma estratégia de ação para o amplo movimento nacional que pôs fim ao ciclo autoritário.

Das ‘Diretas’ a Tancredo

Destaque-se: tudo isso ocorreu nos meses subsequentes à derrota da enorme mobilização contra o autoritarismo hoje conhecida por seu lema, ‘Diretas, já!’. E a Frente Liberal contribuiu para que o movimento confluísse na campanha em favor de Tancredo no Colégio Eleitoral.

Mais até que a vitória em pleito indireto, ensejou o retorno ao estado de direito em seguida ordenado e legitimado pela Constituinte.

Não terá sido a primeira vez em que o percurso foi mais importante que a chegada.

E agora?

Só pra não dizerem que me esqueci dos fatos da semana comento o mais impactante, a descoberta das contas de Lula em fundos de previdência: algo como R$ 9 milhões. Afora a suspeita do quanto se esconderia em paraísos fiscais. O mais crédulo e entusiasmado defensor do Pt e de seu chefe terá dificuldade em entender (e explicar!) como acumulou tanto com os ganhos de operário, dirigente sindical, deputado de um mandato, oito anos presidente da República e no processo quatro vezes candidato – seria a explicação?, sobras de campanha?… Ou teria? a insuspeitada riqueza resultado de palestras regiamente pagas por Odebrecht, Oas e outras empreiteiras enroladas na Lava a Jato? – haja saliva para falar tantos milhões!

 

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