Número de presos que agora têm acesso a oficinas de trabalho cresce mais de 260% no Maranhão

Trabalho executado pelas presas. (Foto: Gilson Teixeira)

O número de presos condenados pela Justiça e que agora podem trabalhar aumentou 260% no Maranhão em comparação com o ano de 2014. Antes eram 600 apenados fazendo algum ofício e agora são 2.175 vagas ocupadas nos mais variados setores. O crescimento tem sido resultado de um esforço do Governo do Maranhão, por meio da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), que já ofertou 105 oficinais e capacitações profissionais desde 2015.

O empenho da gestão estadual deu oportunidade de capacitação a aproximadamente 5 mil presos do sistema penitenciário maranhense, mais de 60% do total de 8 mil encarcerados no estado. Para alcançar tamanha ampliação, além de investir em ressocialização, o Governo do Maranhão vem construindo postos de trabalho dentro das Unidades Prisionais de Ressocialização (UPR’s), como as que funcionam em São Luís, no presídio feminino e masculino; além de Rosário, Timon, Pedreiras e Davinópolis.

Nos próximos meses, o benefício será estendido a Açailândia e Balsas, na região do Sul do Maranhão. No total, são mais de 30 projetos com foco na efetiva profissionalização dos encarcerados, o que proporciona possibilidades de eles retornarem, de forma digna, à sociedade e proporcionando mais segurança à população. Para participar das oficinas, os detentos têm que atender a diversos critérios, como a aptidão para o serviço, o interesse pelo trabalho e o bom comportamento do interno.

“Existe uma Comissão Técnica de Classificação (CTC) que realiza esse filtro dos internos para classificar as aptidões e o perfil mediante análise da equipe multidisciplinar”, diz a secretária adjunta de Atendimento e Humanização Penitenciária (SAAHP), Odaisa Gadelha.

“Esse projeto é o resultado de uma união de esforços do governo e isso faz com que consigamos ressocializar a população carcerária através de uma profissão. Estes internos buscam uma vida digna fora do cárcere e é isso que nossa equipe tem se empenhado ao máximo para contribuir para uma sociedade melhor”, diz Odaisa.

“Essa tem sido uma das diversas metodologias em que o Estado vem aplicando, no intuito de mudar a realidade carcerária no Maranhão. Além de cumprir o papel levando a garantia de segurança aos cidadãos, a ressocialização é uma forma de reinserir o apenado à sociedade com o mínimo de dignidade”, acrescenta.

Segunda chance

Produtos fabricados pelos detentos. (Foto: Gilson Teixeira)

Produtos fabricados pelos detentos. (Foto: Gilson Teixeira)

O espírito empreendedor é algo recente na vida de Irineusa Silva da Cruz, de 40 anos, custodiada pelo Estado, no presídio feminino de Pedrinhas.  O desejo de mudar de vida a levou a uma oficina de preparo de bolos, doces e pães. Após isso, ela já faz planos profissionais para quando sair do presídio. A ideia é garantir, através da panificação, um futuro melhor para ela e os filhos, que residem no município de Zé Doca.

“Essa oportunidade vem da nossa disciplina, pois em primeiro lugar as pessoas devem ter uma conduta boa para que possa ter o direito de trabalhar e estudar aqui dentro da prisão. Mas, graças a Deus, agora eu já tenho tudo pronto na minha cabeça, que é de montar um negócio para vender pães, bolos, doces e salgados. Assim que eu sair daqui, a vida será outra”, afirma.

Trabalho, estudo e orientação profissional igualmente passaram a fazer parte da vida de Maria de Jesus Silva da Cruz , 32 anos, irmã de Irineusa, natural do município de Zé Doca. Ela também é mãe e diz sentir muita a falta de casa. Para contornar a dor da saudade e suprir o ócio, ela executa atividades escolares pelo turno da manhã e profissionais no vespertino, quando ela produz itens de panificação dentro do sistema carcerário.

O resultado da nova ocupação de Maria de Jesus veio após a oferta de oficina no setor de alimentação. “É uma grande oportunidade. Muito gratificante, porque a gente aprende a fazer muitas atividades. Quando chegar lá fora, nós já poderemos colocar em prática tudo que aprendemos aqui. Já é um meio de viver. Estamos trabalhando direto e estudando. Vamos sair daqui com novos pensamentos, e um deles é de trabalhar honestamente para sustentar nossas famílias de uma forma correta”, conta.

Antes de iniciarem os trabalhos, as internas passaram por uma série de capacitações para aprender sobre procedimentos culinários, com especialidade em pães, bolos e salgados, além do manuseio correto dos produtos e equipamentos utilizados na fabricação destes.

“Aqui eu já garanti o meu aprendizado e certificado de curso de panificação, curso de panetone, curso de biscoito, curso de doces e salgados, entre outros. Apesar de ter experiência com a cozinha, eu não tinha tido aulas que me direcionavam e me davam a técnica para que o produto ficasse melhor. Além disso tudo, eu tenho até o certificado que comprova que eu sou habilitada”, comemora Antonia Damires da Silva, 30 anos.

Corte e Costura

Produção dentro da cadeia. (Foto: Gilson Teixeira)

Produção dentro da cadeia. (Foto: Gilson Teixeira)

Já no setor de corte e costura de roupas, as internas trabalham com os mais diversos tipos de peças, confeccionando o próprio uniforme, parte do fardamento distribuído pelo Governo do Maranhão aos alunos da rede pública estadual e até mesmo roupas apreendidas pela receita estadual que são reconstruídas para serem doadas.

“Isso aqui faz muita diferença para gente, onde já se sai desse mundo com uma profissão. Se não fosse isso aqui, eu nem sei dizer como seriam os meus dias. Eu sei que lá fora as coisas não são fáceis, mas com a nossa determinação e a capacidade para vencer, tudo vai se encaminhando dentro do propósito de cada um”, diz Paula Fernanda Saraiva Correa, de 34 anos.

A detenta Elane Cristina Gomes Leite, de 30 anos, diz que se surpreendeu quando soube do benefício. Antes ela não percebia a importância que uma ocupação trazia a uma pessoa. “Hoje vejo que a cadeia não é um depósito de gente. Percebo o real papel da ressocialização e seria interessante que a sociedade começasse a perceber isso. Eu estou muito feliz por ter me encontrado numa profissão”, pontua.

Apesar de nunca ter operado uma máquina de costura, a apenada Leandra Michele Pinheiro da Silva, de 34 anos, diz que gostou muito do primeiro contato com o equipamento e que essa pode ser uma ocupação para quando sair da prisão. “Eu nunca tinha sentado numa máquina de costura e em poucos dias eu já estou até costurando. Essa foi a primeira oficina que eu fiz. Antes eu não sabia fazer nada”, relata.

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