Marco Antônio Pontes | Entre ganhos e perdas, perdemos todos

 

 

 

 

Tributo a Octavio Malta  (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes – marcoantoniodp@terra.com.br


Agora, sim?

E afinal o procurador Janot atirou sua última flecha.

Consta que a extensa denúncia é bem estruturada e muito melhor que a primeira. Teria, de quebra, mais credibilidade na medida em que os autores corrigiram parcialmente o vício original daquela congelada pela Câmara dos Deputados: precedeu-se do, digamos, saneamento da colaboração premiada que em grande parte a fundamenta, aquela protagonizada pelos irmãos Batista e seus executivos.

Assim o Ministério Púbico recupera parte do prestígio que malversara.

Ainda não

O lamentável nisso tudo é que perdemos um tempo precioso. Pior: nesse tempo ganhamos crises e sobressaltos desnecessários.

Se há quatro meses o procurador geral e equipe houvessem despendido iguais tempo e zelo, teriam percebido algo de podre nas ofertas dos irmãos Batista. Mas em vez da análise detalhada quiseram a gloria efêmera – não é todo dia que procuradores derrubam presidente da República…

Perdemos

Com o tempo perdemos também, os brasileiros, a possibilidade de saber com certeza se no Planalto e adjacências cometeram-se os crimes ora denunciados. Porque muitos analistas acreditam que, mesmo bem fundamentada, a peça acusatória está contaminada pelas estripulias cometidas no preparo da antecessora, aquela que os deputados refugaram. E duplamente contaminada.

Ilegalidades

A contaminação atingiria a higidez jurídica da denúncia. Na pressa de ‘fazer história’ os procuradores não periciaram as gravações, hoje sob suspeita de supressões e edições. E consta que um deles, o que depois mudou de lado, orientou, à revelia do Judiciário, a gravação de conversas com detentores de foro privilegiado – uma evidente ilegalidade.

Credibilidade zero

A acusação ficou ainda pior ante a opinião pública. Embora o procurador geral haja proposto e o Stf suprimido os inacreditáveis privilégios dos irmãos Joesley e Wesley (como os de seus prepostos), seus testemunhos foram desmoralizados pelas ‘conversas de bêbados’ que o primeiro gravou e pelos crimes financeiros que teria cometido o segundo.

Assim a credibilidade dos denunciantes caiu abaixo de zero, como bem perceberam o Mp e o Stf: por isso mesmo a colaboração foi cancelada.

Pegos pelo rabo

Tais crimes foram denunciados na imprensa (inclusive, modestamente, aqui) logo na semana seguinte à da divulgação da conversa entre Joesley e Temer. Os operadores do grupo agiram com mão de gato, mas deixaram o rabo de fora e foram apanhados.

Basicamente, valeram-se do conhecido uso de informação privilegiada para ganhar milhões, consta que centenas de milhões de reais, em vez de perder com a desvalorização de suas ações em Bolsa.

Distribuindo prejuízo

O mecanismo em si é bastante simples. Eles venderam papéis da holding J&F, pertencente só à família Batista, para a JBS, empresa de que detêm a administração porém pouco mais de 40% do capital, para que as perdas distribuíssem-se entre os demais – e as ações caíram cerca de 30%. Em seguida a holding comprou de volta os títulos barateados e recuperou só para si, ao longo do tempo, a perda inicial.

Além disso, antevendo a forte queda do dólar em função das próprias falcatruas, compraram algumas dezenas de milhões na baixa e lucraram horrores nas semanas seguintes.

Perdemos, de novo

Como se viu, os espertos ‘colaboradores’ do Mp transferiram para os demais acionistas a maior parte do prejuízo que teriam com a queda das ações do grupo. E o maior desses acionistas, com mais de 20% do capital, é justo o BndesPar, fundo estatal. Quer dizer: levaram o nosso dinheiro.

Perdemos mais

A perda maior, porém, não é a financeira.

O Ministério Público Federal perdeu uma segunda oportunidade de propor justiça: mesmo após as precipitações iniciais, haveria de parcialmente recuperar-se se agisse prontamente ante os crimes financeiros detectados.

O Stf perdeu o mesmo ensejo ao não rever a própria homologação. A propósito: diz-se que só o Mp poderia reverter o processo – como?!, se a colaboração tem de ser referendada pelo Tribunal, ele não pode sustá-la?

Ganhos & perdas

Tudo indica que só a corrupção e a impunidade venceram até aqui.

Os irmãos Batista, como visto, ganharam milhões nos mercados de câmbio e capitais; mesmo presos e objeto de investigações e processos (espera-se que desta vez a sério), contam com o tempo, muito dinheiro e mil manobras judiciais para reverter a atual derrota.

A ver no que dá.

Ganhos & perdas (II)

Os alvos da atual denúncia do Mp, presidente da República incluído, aparentemente ganharam fôlego que talvez lhes permita chegar a 2018. O que talvez não seja de todo mal, se está correto o aparente consenso em que uma nova troca de presidente só prolongaria a já longuíssima crise em que imergimos.

Mas restará de tudo isso uma enorme perda: ficou sem resposta o mais grave e emblemático fato de todo esse processo, hoje quase obscurecido pela sucessão de eventos dramáticos que se seguiram – aqueles inacreditáveis encontro e conversa entre o presidente da República e o empresário que ele depois chamaria “bandido”.

 “De repente,…

…não mais que de repente” o ex-presidente Lula apareceu revigorado, retemperado no depoimento à Justiça Federal. Bem diferente do abatido, apático depoente de meses atrás agora vimos Lula, de novo, no que tem de melhor: atento, sagaz, rápido do gatilho.

Pena (para ele) que dessa vez a Cut e demais movimentos ditos ‘sociais’ não conseguissem reunir em Curitiba pessoal suficiente para saudar a renovação; dizem que, afastados do governo, faltou-lhes grana para repetir o antigo esplendor…

O mesmo, ou pior

O périplo pelo Nordeste, ainda que em pálidas imitações dos antigos, apoteóticos comícios, talvez haja obrado o milagre.

Desgraçadamente, entretanto, Lula reeditou também o que tem de pior: foi arrogante, prepotente, mentiu como sempre à Justiça e acrescentou mesquinhez à mentira ao remeter à falecida dona Marisa a responsabilidade pela inexplicável posse do apartamento vizinho ao seu.

Condescendência

Lula caprichou na maldade e foi também machista, ao dirigir-se com superior condescendência à procuradora que o interrogava: recriminou-a por supostamente não prestar atenção ao que dizia, quis chamá-la ironicamente ‘querida’… – no que foi repelido pelo juiz Moro, que também cortou-lhe as asas quanto tentou dar lições de imparcialidade e quis transformar o depoimento em peça eleitoral.

Machismo…

Aliás, Lula revelou-se impenitente machista em outras ocasiões.

Numa delas a vítima inocente foi a mesma Marisa Letícia – a qual, aliás, tem usado para eximir-se de responsabilidades; como no atual caso do apartamento, também teriam sido dela a iniciativa e demais negociações para aquisição do famoso tríplex no Guarujá.

O episódio que lembro agora ocorreu justo nas cerimônias fúnebres da esposa.

…e prendas domésticas

Lula quis ressaltar sua importância na militância partidária e só se referiu a um feito: disse que ela cortara e bordara os panos da primeira bandeira do Pt.

Não lhe ocorreu falar de assembleias sindicais, comícios, nem mesmo o esforço para libertá-lo quando foi preso pela polícia política; só lhe elogiou as prendas domésticas, as habilidades de costureira…

Sectarismo transviado

Não sei por que o movimento feminista, tão cioso nas críticas aos menores deslizes, invariavelmente ignora as repetidas manifestações machistas de Lula.

Desminto-me; sei, sim: por integrarem grupos quase sempre identificados com a esquerda, as(os) feministas participam do equívoco de pensar que o ex-presidente e seu partido ainda pertencem (se é que um dia pertenceram) à esquerda e seriam portanto, sectariamente, intocáveis.

 

 

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