Marco Antônio Pontes | De celebridades e escuridões

Tributo a Octavio Malta  (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes – marcoantoniodp@terra.com.br


Celebridades na política

Li há duas semanasna Revista Será?, editada na web por um grupo de brilhantes intelectuais radicados no Recife, um editorial de que destaco a conclusão:

“O Brasil não precisa de celebridades na política. O Brasil precisa de um político sério, com experiência, ideias e propostas de mudança.”

Criticava eventuais candidaturas das ditas ‘celebridades’ à Presidência da República, e nisto concordo com o editorialista. Mas não recusaria toda e qualquer participação de tais personagens na atividade política.

Celebridades na política (II)

Tudo bem, parece-me, que Luciano Hulk, Joaquim Barbosa, Sérgio Moro e outros queiram ingressar na política. Especialmente esses três, hoje reverenciados como esperança de renovação e melhores práticas, certo terão algo a oferecer. Cada qual em seu metier eles construíram um belo currículo, angariaram confiança e respeito da opinião pública.

Celebridades na política (III)

Tal sucesso, porém, se os credencia a diferentes e altos voos, não os torna automaticamente candidatos às mais elevadas funções públicas. Antes se precisaria saber – e assim argumenta o editorial de Será?– como se sairiam no jogo politico que, sabemos todos, “não é para principiantes” – ainda mais no Brasil, diria Tom Jobim, cuja frase cito em outro contexto.

Celebridades na política (IV)

Reitero: tudo bem que Moro, Barbosa, Hulk e personalidades com análogos currículos queiram fazer algo mais, quem sabe maior e aspirem à carreira política. Desde que o façam com a competência e realismo que os guindou à atual posição e comecem do começo, com humildade e equivalentes arrojo e prudência.

Caso pretendam exercitar habilidades executivas pensem antes em seu estado, melhor ainda na cidade ou mesmo bairro.Mais apropriadamente lhes seriam indicadas carreiras parlamentares – tanto faz se de vereador, deputado ou eventualmente senador, conforme os perfis e ambições de cada qual.

Não na janelinha…

Só não vale atropelar o processo e começar por cima. Não sei se por iniciativa própria, de amigos entusiasmados ou partidos carentes de quadros, tais ‘personalidades’ tendem a queimar etapas: logo ao chegar ao comboio querem ocupar o melhor lugar, na janelinha do primeiro carro…

Página escura

Como prometi há duas semanas, volto a falar dos subterrâneos do ‘Estado Novo’ (1937–45) e de um de seus atos mais cruéis, página escura da história.

Pesquisei, a conferir e detalharo que lembro: Olga Benário, a mulher de Luís Carlos Prestes, morreu no campo de extermínio de Bemburg, Alemanha, em 1942.Seis anos antes e quatro meses após a deportação,no campo de concentração de Barnimstrasse (próximo a Berlim), dera à luz uma menina logo dela separada,possivelmente para ter o destino de outros bebês judeus entregues a pseudocientistas que os sacrificavam para ‘pesquisar a genética da raça maldita’.

Criança clandestina

Milagrosamente a menina sobreviveu, foi resgatada e pôde crescer no Brasil, mesmo sob a esdrúxula condição de criança clandestina.Foi salva pela insistente busca da avó Leocádia Prestes entre os horrores da Alemanha nazista.

Em seu nome, aliás,Prestes homenageia duas mulheres:Anita Garibaldi, sua coestaduana da Revolução Farroupilha e a não menos heroica mãe, sem cujo destemor não teria existido Anita Leocádia Benário Prestes.

Preta, pretinha

Apresenta-se original, malgrado o conteúdo equivocado, quem me escreve e se oculta sob curioso nome: Preta Preta Pretinha. (‘Tá bem, leitora ou leitor, entendo o recado, via Moraes Moreira.) Sabe-se lá como ela (ele?) revela conhecer algo, aliás irrelevante, deste provecto escriba. Transcrevo-lhe a provocação:

– É muito fácil pontificar sobre racismo e perdoar os brancos para quem tem pele clara, cabelos lisos e olhos verdes. Queria ver você ser agredido por ser diferente e estar no lugar errado.

Teoria e prática

Admiro a sofisticação de quem foi buscar pseudônimo (‘codinome’?…) na bela canção de Moraes, porém detecto preconceito às avessas na provocação.

De fato jamais senti na pele (por causa da pele) racismo ou discriminação, mas aprendi cedo a conviver com a diferença. Aliás, na infância sequer distinguia pretos de brancos, brincava naturalmente com as crianças da casa ao lado, afrodescendentes.

Sobretudo pelo exemplo meus pais ensinaram-me que somos todos iguais e nada objetaram a que meu melhor amigo, aos oito, nove anos fosse um menino negro, da mesma idade. Até por que eles próprios eram amigos do casal vizinho, ele mecânico de automóveis, ela ‘de prendas domésticas’.

Amizade ‘exótica’

Não foi inócua, a discrepância do senso comum dos anos 1949, 50. Veladamente ou nem tanto, fomos discriminados pela ‘exótica’ (?!) amizade. Eu mesmo não notei, só depois soube por que não era convidado às festas de aniversário de meus ‘iguais’.

Estive nem aí para a exclusão, sequer sentida, tampouco percebi que meus pais foram recriminados por seus pares.

Anos depois, no entanto, precisei enfrentar sozinho análoga situação.

Liberação e repressão

Aconteceu-me aos 16 anos quando namorei uma menina muito linda… e preta. Foi um rápido encontro juvenil, como outros que ela e eu vivemos,ambos tentando entender o que se passava em nossos corpos, hormônios em erupção.Eram os anos 1950, tempos de liberdade política e incoerente repressão ao sexo; uns poucos e atrevidos jovens antecipávamos a liberação que se imporia na década seguinte.

Como outros naquela quadra da vida nosso namoro foi intenso e curto, pouco mais de um mês em mútua e alegre descoberta, entretanto suficiente para despertar reações racistas.

Rir de quê?

O racismo atingiu-nos em perversos cruzamentos: meus colegas de escola, quase todos ‘brancos’, refugaram o convívio; um tio imbuído daquelas boas intenções de que ‘o inferno está cheio’ imaginou que eu só quisesse “aproveitar da negrinha”; simetricamente os pais da querida Gracinha preveniram-na: “Ele jamais se casaria com você.”

(Poucos anos depois Graça e eu rimos muito do episódio; hoje, conscientes da iniquidade que nos vitimou, em eventual reencontro acharíamos menos razões para rir.)

Besteiras interessadas

Segue o tema: o velho e querido amigo Evandro Nascimento, sempre muito arguto, desconfia de intenções outras sob o ‘caso William Waak, permite-se elogiar-me a “lúcida reflexão” (obrigado!); e alerta:

– Essa nova onda de Febeapá [Festival de Besteira que Assola o País, apudStalislaw Ponte Preta] ofusca as reais e fundamentais questões que devemos enfrentar.

Sem desdenhar o combate ao racismo, ele teme que episódios menores sirvam para obscurecer e adiar o que precisamos fazer “para, quem sabe um dia, sermos de fato uma nação”.

Opinião fundamentada

Clemente Rosas, intelectual paraibano que fez carreira no Recife (teria igual êxito em qualquer lugar do mundo), reitera o posicionamento aqui registrado há duas semanas com o resgate da própria história:

[…] Em reforço à sua posição no caso Waak, e à minha opinião a respeito, acrescento informação: também sou bisneto de escrava. Minha bisavó, Rosalina Carneiro da Cunha Rosas (o Rosas veio do casamento com Floripes Clementino Augusto Rosas, provável ‘cristão novo’) era ‘cria da casa’ do Barão do Abiahi, babá dos filhos do Barão. E não tenho a obsessão do ‘politicamente correto’, em relação ao trato com minorias – ou mesmo maiorias.

“Muito boa.”

Só com duas palavras e singelo ponto final, como reproduzi no título desta nota, Ana Dubeux, diretora de redação do Correio Braziliense, confere precioso aval ao que escrevi sobre racismo e seu combate.

Sei que Ana é concisa ao escrever e avara em elogios, por isso recebo sua mensagem com especial satisfação. Obrigado!

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