Comunicação & Problemas | Percalços da ala militar, a Vale e suas estratégias

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)

Por Marco Antônio Pontes

(marcoantoniodp@terra.com.br)

“…Começar por onde”?

– Está difícil o nosso país – lamenta-se Luiz Antônio Pontes, acadêmico mineiro radicado na Bahia e, informo em explícita e orgulhosa ‘corujice’, meu primo-irmão.

Pois ele constata que é preciso corrigir e indaga, perplexo:

–…Começar por onde?

Refere-se aos dramas que comentei recentemente, em destaque as tragédias provocadas pela Vale e Flamengo. Mas seu desalento bem poderia resultar das recentes trapalhadas do governo.

Consertos, remédios

No governo há quem tenha bom senso, perceba o que é preciso corrigir. Consta que sua ala militar, a mais numerosa desde os generais-presidentes, atribuiria ao vice-presidente a missão de atenuar os efeitos dos erros de Bolsonaro, a começar pelo remedeio das desastradas postagens dele e filhos nas redes sociais, além de desmentir-lhes ou minimizar os desastrados palpites em projetos e ações do Executivo.

Correções prioritárias

Assim as correções talvez reclamadas por Luiz Pontes recairiam por enquanto, no enfoque desses atores, sobre o núcleo central do poder, Jair Messias e seu entorno imediato, já classificado 00, 01, 02 e 03 – sem que a ordem corresponda necessariamente ao grau de periculosidade.

Ficaria para depois o trato dos três mais notórios ministros-problema. Por ora seriam acompanhados à distância os dois discípulos do ex-anarquista, ex-comunista ‘linha albanesa’, ex-astrólogo, agora autonomeado “filósofo” da direita, Olavo de Carvalho e a “mestra” em ciências sociais que se concedeu o título a partir da própria atividade pastoral.

Raia livre, vigiada

Provisoriamente a ala militar e seu ator principal concedem raia mais ou menos livre (vigiada) ao incipiente diplomata feito chanceler, exceto em questões melindrosas.

Fazem o mesmo quanto ao imprudente professor chegado a impropérios, ilegalidades e à atrapalhada ministra que acende polêmicas em torno bobagens.

Talvez esperem que se enredem nas próprias teias para ajudá-los no retorno às origens, das quais nunca deveriam ter saído – não para assumir responsabilidades muito acima de seus méritos e habilidades.

Enquanto isso o desempenho do grupo militar nas tarefas mais urgentes alterna-se em altos e baixos.

Sucessos expressivos

Os generais afastaram com um peteleco a ideia de abrigar base militar estadunidense em território brasileiro; relegaram às calendas a anunciada mudança da embaixada de Tel Aviv; colocaram todo o peso diplomático do Brasil na recusa de solução armada da crise venezuelana.

Porém deixaram o confuso ‘olavete’ que brinca de chanceler atrelar-nos aos desígnios de Donald Trump, com o beneplácito do Bolsonaro presidente aconselhado pelo Bolsonaro deputado.

Fracasso retumbante

Foi assim que a atuação do Itamaraty perdeu substância. A abordagem equivocada da crise venezuelana comprometeu-lhe a liderança no concerto latino-americano e fê-lo parte do problema, em vez de protagonista da solução.

(Algo análogo ocorrera, com menor intensidade e sinal trocado, quando os governos petistas apoiaram o ‘bolivarianismo’, coisa que sob Temer o Mre já revertera.)

A participação de Jair Messias e seu 03 no affaire expõe retumbante fracasso da ala militar: além de permitir redução da influência continental e internacional do Brasil – um enorme dano –, falhou em conter a ascendência da prole sobre pai.

Outra amostra disso viria logo em seguida.

Contra tudo e todos

Aconteceu logo após Jair Bolsonaro declarar que imporia ‘filtros paternos’ às palavras e ações dos rebentos.

Em cima do lance, diante da solicitação (atendida sem controvérsias ou acidentes) de um sofrido, abatido Lula de comparecer ao enterro do netinho de sete anos, Eduardo Bolsonaro reagiu com absurdas insensibilidade e virulência.

Sintoma de que o presidente não imporá os limites anunciados porque, contra todas as opiniões, argumentos e conselhos dos aliados, pai e filhos pensam igual (e mal, sob idênticas idiossincrasias e preconceitos).

Faculta, não obriga

Sobre permitir a Lula deixar a prisão para consolar-se no convívio familiar e a anterior negativa quando da perda do irmão, afora considerações humanitárias que suponho unânimes, anoto que a imprensa informou muito mal ao decretar a saída um direito líquido e certo do ex-presidente.

A lei determina é que a autoridade a que se submete o preso pode – só pode, nada a obriga – conceder o benefício, se exequível.

 (Entre parênteses,…

…constrangimento e perplexidade, registro o porno-escatológico twitte do presidente da República, possivelmente em reação a foliões que o xingaram e ridicularizaram. E sua não menos obscena afirmação de que “liberdade e democracia só existem quando as Forças armadas querem”. Mais não digo nem se perguntado.)

Bolsonaro 1 x 0 congressistas

Intervalo surpreendente nesta comédia de erros: nos primeiros entreveros pela reforma da Previdência, Bolsonaro e Paulo Guedes aparecem bem na foto; os congressistas, muito mal.

O governo reluta em colocar as mudanças no iníquo balcão do ‘toma lá, dá cá’, os parlamentares insistem na velha troca de apoio por cargos e nacos do orçamento.

Discordância

Retomo considerações sobre as calamidades desencadeadas pela Vale em Minas Gerais, no ensejo do afastamento de seu presidente e diretores por recomendação do Ministério Público antes mesmo que o Judiciário pronunciasse-se. Começo por abrir espaço à opinião de Clemente Rosas:

– Pela primeira vez discordo do seu texto. Não pelo conteúdo, mas pelo tom e pelas ênfases. A linha de deboche e a simplificação de demonizar uma pessoa jurídica – a Vale – não me parece o melhor caminho para tratar o problema.

Excelência desastrosa

A mim parece que desta vez concordaremos em discordar, Clemente e eu – na forma, com a feliz (para mim) ressalva do conteúdo.

Não teria a própria Vale ‘demonizado-se’ ao menosprezar a prevenção?, em Brumadinho como antes no Vale do Rio Doce? Quanto ao tom, ênfases e deboche, desculpo-me se não me fiz entender:

não quis debochar, só ironizar iniquidades tamanhas que escapam ao raciocínio lógico; foge a considerações racionais a hipótese de que uma grande empresa deboche (aí, sim) da opinião pública ao reiterar excelência na prevenção de acidentes e protagonizar dois megadesastres em três anos.

Filme conhecido

A Vale cerca-se de sábios e sabidos advogados para prevenir as ações judiciais que enfrentará.

É assim que se reedita Mariana: a Samarco renegou nos tribunais as boas intenções iniciais e procrastina até hoje reparações aos flagelados e ação efetiva ante a catástrofe ambiental.

O mesmo filme é exibido pela megamineradora às vítimas de seu desleixo no Vale do Paraopeba.

Culpa compartida

Entretanto, volto a concordar com Clemente Rosas nas considerações finais de sua mensagem:

– Na verdade a tragédia tem muitos responsáveis: os executivos da empresa, os técnicos, os auditores, os fiscais do setor público, os prestadores de serviços… Exemplo: por que os engenheiros da Tuv Sud […] se submeteram à pressão do executivo da Vale e deram o atestado de confiabilidade da barragem?

Mar de conchavos

Outros leitores manifestaram-se sobre minha crítica à Vale e sua subsidiária.

Destaco a denúncia de Cláudio Machado, economista de escol com quem tive o prazer de conviver no Ipea, do “mar de impunidade, lama, conchavos e corrupção que assola o país” e o apoio entusiasmado, porque generoso de Onaldo Pompílio, parceiro e mestre a vida toda:

– Excelente!, caro Marco. Parabéns!

Fazem e acontecem

Concorda comigo Flávia Seixas, leitora recente e dá testemunho:

– Sou de Colatina [bela cidade à margem do rio Doce, no Espirito Santo] e apesar de residir em Brasília conheço bem o sofrimento dos pescadores e outros pobres da minha cidade [por] que a empresa Vale e sua ‘filhota’, como o senhor diz, […] poluíram o rio. Acho que é preciso que as pessoas denunciem estas grandes empresas que são muito poderosas e […] fazem e acontecem o que bem entendem.

 

Duplo susto, silenciado

[…] Definitivamente a sucessão de fatos recentes em nosso país e o noticiário sobre eles são, ambos, assustadores – alarma-se o acadêmico Sérgio Alves, referindo-se àquelas catástrofes e a outra, também aqui denunciada: a precariedade da cobertura dos veículos de comunicação, ‘cheios de dedos’ na crítica a grandes grupos empresariais.

Na mesma linha manifesta-se Marcos Noronha, persistente e participativo leitor que assume “a frase atribuída a Martin L. King: ‘O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons’”.

Influência anestésica

O jornalista e acadêmico Ailê-Selassié Quintão envia-me a propósito artigo que escreveu sobre os megagrupos empresariais e seu formidável, espúrio poder de influenciar governos e anestesiar a opinião pública. Tem tudo a ver com o assunto mas fica para a próxima edição, que esta acabou.

 

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