Comunicação & Problemas | A ditadura revisitada e a maldição dos vices

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)

Marco Antônio Pontes

(marcoantoniodp@terra.com.br)

Política de extermínio

Continua a repercutir na mídia tradicional e redes sociais o memorandum outrora secreto da Cia que revelou ter sido o extermínio de “subversivos” parte da política de segurança do estado brasileiro sob o autoritarismo – e não “excesso” eventual cometido por “revolucionários sinceros porém radicais”, como qualificou os celerados da ‘linha dura’ o então presidente Ernesto Geisel, aliás um dos chefes do regime de exceção que, segundo a Agência estadunidense, teria autorizado prisões, torturas e execuções dos opositores da à época chamada “Revolução”, eufemismo para ditadura.

Tortura organizada

Está agora documentado algo de que sabíamos, os jornalistas, naqueles duros tempos e a censura impedia publicar. Confirmou-se o que comentávamos nas redações: os patronos da “abertura lenta, gradual e segura” (palavras de Geisel, outra vez, conforme estratégia formulada por Golbery) não queriam exatamente impedir a tortura e assassinato dos oponentes, apenas administrar a violência, submetê-la à sagrada hierarquia militar.

Tem mais

É bom que reverbere, o memorandum. E que o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, conforme anunciado, auxilie os pesquisadores (como Matias Spector, o jornalista e historiador que exibiu o primeiro documento) a encontrar outros memoranda que a Agência Central de Inteligência estadunidense ‘desclassificou’ – quer dizer, deixou de classificar como reservados, secretos ou coisa que o valha.

Muito mais informação preciosa, talvez igualmente bombástica poder-se-á obter sobre os crimes da repressão naqueles anos de chumbo, em devida reparação aos sobreviventes das perseguições políticas, prisões ilegais, torturas, assim como aos familiares dos ‘desaparecidos’.

História liberada

Ademais, informação dessa natureza é imprescindível ao resgate da história.

Se os arquivos dos órgãos de segurança brasileiros continuam fechados aos diretamente interessados e pesquisadores, ou se foram destruídos como alega a burocracia militar – parece improvável que burocratas, em seu impenitente culto da papelada, queimem documentos; mas é pouco produtivo insistir só nesta busca –, tanto melhor que se possa ter notícia do acontecido aqui em documentos sistematicamente guardados por décadas e no tempo previsto em lei liberados pelo governo dos Eua.

Não podemos é fingir que tais iniquidades não aconteceram: “Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la” (Edmund Burke, filósofo e estadista irlandês).

Tema de campanha

Tal qual antevi na edição anterior, o tema interfere na campanha eleitoral.

O candidato que pretende aglutinar os saudosos da ditadura foi chamado às falas e saiu-se com ridícula escusa, a comparar deliberados homicídios e torturas cometidos por agentes do estado a palmadas de pais impacientes nos filhos rebeldes.

Gerou-se um novo contexto político, com o destaque na imprensa de documentos, manifestações artísticas alusivas ao tema e relatos de perseguidos da ditadura.

Exclusivamente preocupados com o chefe preso, os líderes do Pt e adjacências ignoram o assunto; entretanto os intelectuais progressistas que ainda respaldam o populismo lulista são instados a posicionar-se e têm boa oportunidade de resgatar causas que de fato interessam à esquerda.

Nos palácios como nos porões

Só não vale, no contexto dos memoranda, reeditar velhos vezos maniqueístas como o ‘nós contra eles’ do Pt. Se não fosse trágico seria ridículo, no Brasil de hoje, ressuscitar anacrônicas disputas entre comunistas e anticomunistas, ‘subversivos’ e ‘revolucionários de 1964’.

Importante é resgatar a história, universalizar informações, ensejar que se saiba dos crimes ocorridos nos porões da ditadura – e também em seus palácios, agora se comprova.

Verdade motivadora

Importa mais é que a verdade enfim revelada provoque reflexões, motive o cidadão a conhecer e compreender o passado, assim encarar sem medo o presente e agir conscientemente nas próximas eleições, oportunidade de banir velhos fantasmas e construir um futuro melhor.

Ídolos desnecessários

Um belo achado, na mensagem do Ministério do Planejamento a seus funcionários por ocasião do 1º de maio, o Dia do Trabalhador, a citação de Ayrton Senna; ainda mais nestes tempos de ídolos decaídos e perigoso clamor por ‘salvadores da pátria’:

Eu não tenho ídolos, tenho admiração por trabalho, dedicação e competência”.

Parabéns! aos assessores de comunicação do Ministério e aos publicitários de sua agência.

História e (é) ciência

O experiente repórter entrevistava na GloboNews (07.05.2018) Yuval Harari, escritor na moda – nada contra, as qualidades ultrapassam modismos – quando derrapou na semântica:

Ele nem é um cientista, é historiador!”

Prefiro atribuir a gafe só à má escolha de palavras, deslize involuntário. Certamente o jornalista não pensa que história não é ciência.

Pinguela…

Pinguela, a maldição do vice – não poderia ser mais instigante o título do novo livro do jornalista Aylê Selassiê.

Ele glosa a frase de Fernando Henrique Cardoso sobre o governo Temer, em alusão ao documento Ponte para o futuro do Pmdb do então vice-presidente, que propunha ações com que superar os impasses que levariam ao impeachment de Dilma:

Será no máximo uma pinguela”, disse o ex-presidente tão logo Temer assumiu – e a boutade revelar-se-ia premonitória.

…e maldições…

Pois, dizia, Aylê escolheu título e mote feliz para abordar fenômeno curioso: a saga que amaldiçoa não exatamente os vice-presidentes da República, porém a substituição ou sucessão de chefes de estado e governo por seus vices desde 1889.

Já na primeira troca de mando republicano assumiu o vice Floriano Peixoto quando Deodoro renunciou, insatisfeito com os rumos do regime que ajudara a instaurar com a ‘proclamação’ de 15 de novembro – na verdade um golpe de estado. Desde então, segundo a contabilidade do escritor, foram mais dez assunções de vices depois de morte, renúncia ou deposição de presidentes.

…sucessivas, …

Só nos tempos em que o erudito Aylê e este velho jornalista têm acompanhado, pelos jornais, a evolução (e involuções) da política brasileira, cinco vice-presidentes ascenderam ao poder.

Café Filho assumiu após o suicídio de Vargas, em 1954 e o também vice João Goulart sucedeu Jânio Quadros, renunciante em 1961.

O próprio Jango seria deposto pelo golpe de 1964 porém, na falta de vice, substituiu-o por alguns dias o presidente da Câmara até que a força militar impusesse um chefe ‘eleito’ pelo Congresso.

…a presidir…

Nos primórdios da redemocratização Sarney substituiu o presidente que não pôde assumir: o acaso preparou cruel armadilha a Tancredo e ao país.

Collor renunciou antes de ser impedido em 1992 e abriu vaga a Itamar, exceção à norma das sucessões malditas – foi o vice que deu certo.

De volta à regra geral, o traumático impeachment da infeliz “presidenta” – errada desde a versão de gênero que se atribuiu – levou ao Planalto um sucessor frágil, sobretudo após ser apanhado em conversa nada republicana com notório empresário corruptor.

…sucessões atípicas

Estou curioso da abordagem do erudito jornalista das numerosas sucessões ‘vicepresidenciais’ na história da República. Trará informações preciosas e ricas análises de episódios nada republicanos, como da conturbada sucessão de Getúlio Vargas por João Café Filho, quando tivemos três presidentes em menos de uma semana – um deles só por algumas horas…

À Pinguela…, pois

Estarei no lançamento e autógrafos do autor e proponho aos leitores escolher entre duas alternativas: na Associação Nacional dos Escritores (707-907 Sul, edifício Almeida Fischer), quinta-feira próxima (24.05) ou no restaurante Carpe Diem, SCLS 104 na terça-feira seguinte, 29.05.

Haverá um terceiro lançamento em Ubá, a culta cidade mineira vizinha de Rio Novo, minha terra natal, promovido pela Academia Ubaense de Letras, da qual Aylê é membro.

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