Vaidades, veleidades… e a defesa do idioma


 

 

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)

(marcoantoniodp@terra.com.br)

 

Análises estapafúrdias

Lula, sua falecida candidatura e a desesperada luta para escapar da prisão seguem a pautar a imprensa timorata e motivar análises pra lá de estapafúrdias.

Seria tedioso abordá-las – a não ser, de passagem, as referentes ao jurista, emblema da advocacia libertária que enfrentou a ditadura e hoje procuraria atestar com seu prestígio a ‘pureza d’alma’ do ex-presidente, em peregrinação pelos tribunais que brilhantemente integrou a protestar por posicionamentos menos severos.

Vírgula, ponto de interrogação

Deixo o tema à visão original de alguns leitores, a começar Sérgio Alves, que glosou opiniões aqui emitidas há pouco mais de mês sobre o comportamento de Lula.

Lula tem juízo – escrevi e o professor da Ufpe brinca com vírgula e ponto de interrogação para duvidar:

– Só uma indagação, […] é tal como está ou faltou uma vírgula (Lula, tem juízo), ou um ponto de interrogação (Lula tem juízo?)?

É, não é, é…

Célio Alves Costa cita Elmer Barbosa que cita Tim Maia:

Por essas e outras eu acho que o Brasil […] não é sério. O Tim Maia dizia que ‘aqui prostituta tem orgasmo, cafetão se apaixona, traficante vicia-se e pastor evangélico diz que foi gay e recuperou-se.’ Não dá…”

Agora, o próprio Célio:

– Lula é dono de um sítio que não é seu. Ou Lula não é dono de um sítio que é seu. O advogado [vá o trocadilho…] Sepúlveda lhe Pertence?

Não pensam

Mais do citado leitor Elmer C. Barbosa:

– Os fascistas de esquerda [sic], que são muitos e não sabem e os de direita que são mais [e sabem, acrescento] nunca avaliam as consequências; porque não pensam criticamente […]. Quem propôs prisão após condenação em segunda instância foi […] Eduardo Cardozo, que depois foi ministro da presidentA, a confusa.

Veleidades jurídicas

Se já me haviam espantado no início da semana muitas análises e opiniões estapafúrdias, a mais absurda leria na sexta-feira: a de Reinaldo Azevedo, expoente do colunismo ultraconservador, a discordar da condenação de Lula.

Intrigaram-me suas veleidades de somar à competência com que escreve a sapiência jurídica para contestar e acusar procuradores, juízes, tribunais – até o Stf.

Torquemada, Robespierre…

O jurisconsulto incontrastável decidiu monocraticamente que vivemos sob “atípico” estado de direito, descobriu um Torquemada no Stf, acusou ministros de conluio com a procuradora geral para “soltar a franga robespierriana” e “engavetar a Constituição”, repetiu petistas que catam juízes-conspiradores debaixo da cama ao ensinar aos tribunais que Lula “foi condenado sem provas”.

Constitucionalista midiático

É pouco? Tem mais. O impenitente gênio midiático-jurídico, entre juízos deselegantes sobre a presidente do Stf, disse que ela prefere “apequenar” o Tribunal a pautar recursos que (acha) salvariam Lula.

Insuspeitado ‘constitucionalista’, afirma que a Pgr caracterizou nenhum ato corrupto ao denunciar Aécio Neves e, fecho de ouro, acusa integrantes do Stf de “nova cruzada contra Temer”, a “violar de forma inequívoca” a Constituição.

Só pensam…

Escreve-me Clemente Rosas sobre especulações, que comentei, de supostas manobras de Fernando Henrique Cardoso:

– Acho que jornalistas também ‘só pensam naquilo’, […] as atitudes mesquinhas dos políticos. […] Não me parece razoável que Fernando Henrique manobre para voltar à presidência, […] correria o risco de sujar a biografia […].

Nem anjos nem burros

Ele duvida também de que o atual presidente aspire à reeleição:

– Temer […] quer passar à história como o presidente que tirou o país de uma encruzilhada […]. Não acredito que seja tão parvo […]. A presidência é o topo da carreira, […] depois só o panteão da história. […] Políticos não são anjos mas são minimamente inteligentes.

Sensatos, os reparos.

Julgamento da história

Michel Temer talvez fique bem na história, caso dê certo a intervenção no Rio.

Fernando Henrique somou prestígio político ao intelectual ao participar, ministro de Itamar, da formulação e viabilização do Plano Real. Soube administrar a herança, saiu-se bem na presidência, ganhou foros de estadista.

Vaidade, seu nome é…

Em seu caso, porém, cabe conjeturar se a enorme vaidade, indutora de apropriação indébita da paternidade do Real, não o levaria a aventuras.

Ficou patente sua mágoa dos candidatos tucanos de 2002, 2006 e 2010 que covardemente lhe renegaram a obra e o esconderam como um pária. Teria chegado a hora de vingar-se de um deles?

O intelectual e o idioma

Não é, porém, neste tema que hoje pretendo estender o diálogo com Clemente. Desejo é reabrir a polêmica suscitada pelos leitores que advogaram liberalidade na observância das regras gramaticais para que coincida a língua escrita com o falar do povo. Faço-o, como antecipei, a partir de seu artigo sobre o ensino de português.

Lobato desmentiu-se

A controvérsia é velha, ele observa e lembra que Monteiro Lobato defendeu ideia semelhante, de que o ‘brasileiro’ estaria ‘saindo do português’.

Entretanto, mostra a que a tese é desmentida até pelo autor ao constatar que Lobato “…não segue o próprio preceito […] [e escreve] sem solecismos nem grafia acomodada às variações populares de prosódia”.

Latim no isolamento

Ele examina o assunto sob a perspectiva da formação dos idiomas neolatinos:

“As populações da Itália [e demais domínios romanos] eram  analfabetas […] e tinham, pelas características dos idiomas nativos, […] dificuldades para reproduzir os sons [do latim]. […] Sem os meios de transporte e comunicação de hoje, seu isolamento era quase completo”.

Sem diversificação

“Nenhuma dessas condições prevalece, nos tempos atuais” – anota o atilado articulista. “A alfabetização é a regra, […] a multiplicidade e amplitude dos meios de comunicação […] mantêm pessoas antes isoladas […] em permanente interlocução, contribuindo para a uniformização dos falares regionais […] e cada idioma incorpora […] expressões, conceitos e palavras dos outros. Daí que “a tendência evolutiva não seja mais de diversificação, mas de aproximação”.

Não passou

Por isso ele não vê sentido em abandonar “o rio da linguagem devidamente canalizado e regularizado”, no qual todos podem navegar.

Além disso o texto esclarece que, se há séculos não ocorrem as condições e fenômenos que modificaram regionalmente o latim para dar lugar às línguas românicas, equivocam-se os que imaginam mudança significativa no idioma a ponto de conformar um “brasileiro” que “já passou do português”, como queria Noel Rosa.

Suassuna dá o tom,…

Clemente registra também o insucesso de incorporar acriticamente à literatura “o linguajar dos sertanejos rudes, como tentaram os chamados ‘poetas matutos’” – entre eles Catulo da Paixão Cearense. E cita o inquestionável Ariano Suassuna como exemplo feliz de recriação da cultura e fala populares sem agredir as normas gramaticais.

…Cavalcante explica

Aqui a abordagem da velha questão – como reproduzir a fala do povo na literatura? – lembra-me o que aprendi há décadas com Jorge Cavalcante, aliás também amigo de Clemente Rosas.

Tomava por paradigma a obra de Guimarães Rosa para mostrar como se faz (guardei com precisão o conteúdo, se não a forma do que disse):

– O escritor deve reproduzir a expressão dessas pessoas do jeito que elas falariam se tivessem aceso à norma culta.

 “Nonada”

Não resisto à tentação de apoiar a tese de Jorge nas primeiras linhas de Grande Sertão: Veredas, que por alguma razão a memória fixou. Protagoniza-as, como também o romance, o jagunço-filósofo Riobaldo:

“Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja. Alvejei mira em árvores…”.

 

 “Pra não dizer que

…não falei de flores” (apud Geraldo Vandré), só uma anotação vadia da coincidência pitoresca: nestas notas sobre o idioma não falta flor, aliás rosa. Ao menos nos sobrenomes dos citados – Noel, João Guimarães e, claro, o plural Clemente.

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